Desvelando a Crise da Governança Carioca
A renomada revista britânica The Economist trouxe à tona, na edição deste sábado, um retrato alarmante da realidade no Rio de Janeiro. A análise ressalta a dicotomia entre a efervescência do setor turístico e a falência institucional que aflige a metrópole. Enquanto a cidade atrai milhões de visitantes, a luta para garantir a ordem pública se torna cada vez mais desafiadora, em meio a um panorama de corrupção enraizada e controle territorial exercido por facções criminosas.
Os dados impressionam: o Rio de Janeiro registrou a visita de 2,1 milhões de turistas internacionais em 2025, um aumento de 45% em comparação ao ano anterior. Contudo, essa imagem de um destino exótico e vibrante esconde uma realidade política fragilizada e repleta de desafios, conforme aponta a Economist. O cenário político no estado é, na verdade, marcado por uma instabilidade quase total, refletindo um histórico de governadores afastados ou presos por atos de corrupção durante o século XXI.
A situação atual é alarmante. O ex-governador Cláudio Castro enfrenta a proibição de ocupar cargos públicos por um período de oito anos, após ser acusado de desvio de verba pública para fins eleitorais. Enquanto isso, Rodrigo Bacellar, presidente da assembleia legislativa, é mantido em prisão preventiva por suspeitas de envolvimento com o tráfico de drogas.
A Intersecção entre Crime e Política
Um dos focos da análise da The Economist é a estreita relação entre o crime organizado e a classe política. O assassinato da vereadora Marielle Franco é um dos casos que simbolizam essa intersecção, servindo como um ponto de inflexão para a discussão sobre a corrupção no estado. Em fevereiro de 2026, a condenação de Chiquinho e Domingos Brazão, ambos sentenciados a mais de 76 anos de prisão, revelou a profundidade da infiltração das milícias nas instituições públicas cariocas.
A revista também destaca as conexões sombrias que permeiam o cenário político nacional. Entre os exemplos citados, estão os laços familiares de Adriano da Nóbrega, miliciano que perdeu a vida em um confronto em 2020, e sua presença na folha de pagamento de Flávio Bolsonaro, quando este atuava como deputado estadual. A proximidade das eleições presidenciais de outubro acirra a atenção sobre tais vínculos, especialmente considerando que Flávio é um dos nomes mais proeminentes no atual cenário político.
Controle Territorial e a Exclusão Social
A reportagem avança ao detalhar a divisão do controle territorial no Rio de Janeiro, que está em grande parte sob domínio de organizações criminosas e milícias. De acordo com os dados apresentados, cerca de 1,7 milhão de pessoas vivem sob a influência das milícias, enquanto um número similar de habitantes encontra-se sob o domínio do Comando Vermelho (CV).
O complexo da Maré é um exemplo claro dessa exclusão social, abrigando mais de 140.000 pessoas em uma área inferior a quatro quilômetros quadrados. Essa realidade evidencia como o crime organizado ocupa o espaço deixado pela ausência do Estado. A revista descreve essa situação com franqueza: “Welcome to the other Rio de Janeiro: an urban jungle thick with the tendrils of crime and corruption” (Bem-vindo ao outro Rio de Janeiro: uma selva urbana densa com as gavinhas do crime e da corrupção).
Conforme relatado na publicação, a percepção entre os cariocas é de que a situação ultrapassou os limites do que pode ser administrável localmente. O apelo por uma intervenção federal tem ganhado força, e o Senado brasileiro já discute medidas para erradicar a “infiltração sistêmica” do crime nas instituições. Wellerson Milani, um morador do Rio que foi citado na reportagem, expressou a preocupação de muitos: “Como você vai ter uma eleição limpa quando metade da cidade é controlada por grupos criminosos?”.
Assim, a reportagem da The Economist deixa claro que, além das famosas praias e atrações turísticas, o Rio de Janeiro enfrenta uma crise de legitimidade democrática. A necessidade de ações drásticas e urgentes é evidente para evitar que o “outro Rio” continue a impor o seu ritmo na política e na vida social do estado.

