Um Novo Olhar Sobre o Cuidado em Saúde
No contexto do Dia dos Povos Indígenas, comemorado em 19 de abril, reflexões sobre saúde pública adquirem novas dimensões a partir de práticas ancestrais e experiências vividas nos territórios. Indígenas, negros e pessoas da comunidade LGBTQIAPN+ são protagonistas de um projeto que busca expandir o conceito de cuidado, unindo saberes tradicionais e ações comunitárias com a visão de grupos que historicamente foram marginalizados.
Intitulado “Cosmopolíticas do cuidado no fim-do-mundo”, a iniciativa é coordenada pelo professor José Miguel Nieto Olivar da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (FSP-USP) e possui o apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).
O projeto abrange seis frentes de investigação que se estendem de territórios amazônicos até periferias urbanas, com o intuito de aproximar diferentes formas de conhecimento. A iniciativa é centrada no diálogo entre saberes acadêmicos e experiências comunitárias, reconhecendo a legitimidade de diversas vivências em cuidados, resistência e vida.
Revisão Crítica da Saúde Pública
Além disso, o projeto propõe uma crítica aos modelos tradicionais de saúde pública, incorporando perspectivas que, por muito tempo, ficaram à margem do campo científico. A ideia é enriquecer a compreensão sobre cuidado em saúde, integrando saberes técnicos com práticas comunitárias e conhecimentos não institucionalizados, de maneira acessível e socialmente contextualizada.
Segundo Nieto Olivar, a proposta se baseia na necessidade de revisar os fundamentos do campo. “O objetivo é respeitar formas de cuidado desenvolvidas por grupos historicamente vistos como ‘outros’ e repensar a própria concepção de saúde, seus paradigmas e sujeitos”, afirma.
Práticas no Alto Rio Negro
No Alto Rio Negro, no Amazonas, a pesquisa foca nas práticas de cuidado realizadas por mulheres indígenas, que combinam saberes sobre plantas medicinais, alimentação e espiritualidade. Durante a pandemia de Covid-19, essas práticas foram cruciais para a proteção das comunidades, integrando conhecimentos tradicionais e estratégias biomédicas.
A experiência de Elizângela da Silva Costa, pesquisadora indígena da etnia Baré e doutoranda na USP, exemplifica como o cuidado em saúde está profundamente enraizado no território e nas experiências coletivas. Elizângela, que tem formação em Sociologia pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam), desenvolveu uma atuação que abrange educação, liderança comunitária e pesquisa.
Ela coordenou escolas indígenas no Alto Rio Negro, liderou o Departamento de Mulheres Indígenas do Rio Negro (DMIRN/FORIN) e presidiu a Associação das Mulheres Indígenas do Alto Rio Negro (AMIARN). Durante a pandemia, foi essencial na campanha “Rio Negro, Nós Cuidamos!”, que mobilizou a distribuição de alimentos e itens de higiene, além de atuar como educadora de saúde em colaboração com os Médicos Sem Fronteiras.
Redes de Cuidado em Comunidades Religiosas
A Parcela 2 do projeto, coordenada por Michel de Oliveira Furquim dos Santos, doutorando da USP, investiga as redes de acolhimento para LGBTQIA+ em terreiros de umbanda em Tabatinga, no Alto Solimões. Esta pesquisa destaca como a comunidade religiosa articula práticas que entrelaçam questões de espiritualidade e cuidado.
O Terreiro do Pai Jairo, que abriga cerca de 60 pessoas, é um espaço de acolhimento onde moradores de diversas origens buscam suporte. A partir desse terreiro, surgiram outras iniciativas que promovem um ambiente de aceitação e cuidado, reunindo pessoas independentes de sua fé ou práticas espirituais.
A trajetória de Mãe Samara, uma travesti e mãe de santo, exemplifica essas redes complexas. Por meio de sua experiência como trabalhadora sexual, Samara teve acesso a recursos que lhe permitiram se afirmar como liderança espiritual, mostrando como diferentes identidades podem coexistir de maneira harmoniosa.
Fortalecimento das Redes de Cuidado durante a Pandemia
A Parcela 3 do projeto amplia esta análise, explorando as redes de cuidado estabelecidas por trabalhadoras sexuais, um segmento que historicamente se organizou para enfrentar desafios, especialmente em tempos de crise como a pandemia de Covid-19. Olivar destaca a importância dessas redes para a proteção e cuidado mútuo, que, mesmo fora do olhar do Estado, mostraram-se fundamentais.
Em parceria com o Núcleo de Pesquisa em Direitos Humanos e Saúde da População LGBT+, a equipe trouxe à luz a situação de mulheres em prostituição em diferentes estados, revelando a necessidade de reconhecimento e apoio a essas iniciativas. A pesquisa abrangeu áreas como Manaus, onde a falta de estudos sobre trabalho sexual ainda é um desafio.
Assim, a trajetória de uma estudante que revisita sua infância, lembrando-se de sua tia, ex-trabalhadora sexual, ilustra como experiências de vida e vínculos afetivos são formas de cuidado que muitas vezes não são valorizadas, mas que são cruciais para o bem-estar coletivo.

