Projetos de mobilidade urbana travados geram perdas para o Rio de Janeiro
O Rio de Janeiro acumula há décadas uma série de projetos de infraestrutura que, apesar de terem recebido estudos, anúncios e até recursos públicos, permanecem inacabados. Essas obras, voltadas principalmente para a mobilidade urbana, prometiam reduzir os congestionamentos, melhorar o transporte e estimular o crescimento econômico do estado, mas ainda não saíram do papel.
Entre as iniciativas que seguem pendentes estão ampliações do metrô, novas ligações rodoviárias e estruturas que poderiam aumentar a capacidade do sistema de transporte. O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) identificou, no fim de agosto, 15 projetos prioritários para ampliar metrô, VLT e BRT no Rio de Janeiro, na Baixada Fluminense e Região Metropolitana. Para viabilizar essas intervenções, seriam necessários ao menos R$ 68 bilhões.
Demora nas obras afeta usuários e economia local
Enquanto novas propostas ainda estão em fase de estudo, outras permanecem paralisadas há anos. O professor Rômulo Orrico, do Programa de Engenharia de Transportes da Coppe/UFRJ, destaca que a lentidão na execução desses projetos tem consequências diretas para a população.
Ele cita como exemplo a Linha 3 do metrô, que, se implementada, traria benefícios para os usuários do transporte público, trabalhadores e até motoristas. “Os usuários ganhariam tempo e teriam custos mais baixos”, afirma. Além disso, a redução no número de veículos nas ruas poderia aliviar os congestionamentos, beneficiando quem ainda utiliza carros.
Projetos antigos e pendentes que impactam o transporte
A Linha 3, que prevê a ligação entre Rio de Janeiro, Niterói, São Gonçalo e Itaboraí, foi anunciada em 2013, mas as obras nunca começaram. Neste ano, a Coppe/UFRJ divulgou um estudo técnico detalhando cerca de 50 quilômetros de extensão e 29 estações, estimando que a linha poderia beneficiar cerca de 1,7 milhão de pessoas. O consultor da Fecomércio RJ e ex-secretário estadual de Transportes, Delmo Pinho, avalia que o projeto seria ainda mais eficaz se a linha alcançasse o interior de São Gonçalo.
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Outro projeto antigo em espera é a extensão da Linha 2 do metrô, ligando Estácio a Praça XV. Concebida nas décadas de 1970 e 1980, essa extensão teria cerca de três quilômetros e custo estimado de R$ 3,3 bilhões pelo BNDES. Atualmente, a Linha 2 divide a infraestrutura da Linha 1 entre Estácio e Botafogo, o que limita a frequência dos trens. A Prefeitura do Rio informa que a conclusão dessa ligação poderia aumentar em até 70% a capacidade da Linha 2, eliminando cruzamentos operacionais e permitindo maior fluidez no sistema.
Estação Rio Sul e Via Light: exemplos de obras incompletas
A Estação Rio Sul, ou Estação São João, em Botafogo, é uma obra que já tem parte da estrutura subterrânea escavada, mas segue inacabada. A estação integra a expansão da Linha 1 do metrô, com acesso previsto pela Rua Álvaro Ramos. Passados mais de 30 anos desde os primeiros planos, a obra ainda não foi concluída.
Na Região Metropolitana, a ampliação da Via Light, rodovia Carlinhos da Tinguá, aparece como alternativa para aliviar o trânsito, conectando a via à Linha Vermelha e a Madureira. Essa extensão poderia dividir o fluxo de veículos atualmente concentrado na Rodovia Presidente Dutra, beneficiando moradores da Baixada Fluminense. Apesar de constar em debates entre Estado e Prefeitura, o projeto não avançou para execução completa.
Impactos econômicos das obras paradas
O atraso nessas obras não compromete apenas a mobilidade. A economista e planejadora financeira Isabel Abreu explica que o anúncio de uma obra já movimenta o mercado — incorporadoras avaliam terrenos, empresas planejam logística e prefeituras incluem a obra em seus orçamentos futuros. Quando o projeto é interrompido, os investimentos podem ser redirecionados para outras regiões, enquanto a retomada posterior exige atualização de estudos, projetos, licenças e custos.
Cassio Vianna, CIO da Pilar Capital, divide os impactos em três frentes: perda de estímulo econômico, frustração das expectativas geradas pela obra e desgaste institucional. Além disso, projetos anunciados e não entregues podem elevar a percepção de risco entre investidores, dificultando o acesso a financiamentos e aumentando exigências para novos empreendimentos.
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Custos crescentes para o poder público
Obras paralisadas geram despesas extras para o setor público. O engenheiro Leandro Domaredzky destaca custos com manutenção, conservação, monitoramento, além de multas, indenizações, litígios e pedidos de reequilíbrio contratual. Ainda podem surgir novas licitações, atualização de projetos e renovação de licenças. Quanto maior o tempo que uma obra fica inacabada, maior o custo final para o poder público e, consequentemente, para os contribuintes.
Exceções e avanços em obras estratégicas
Nem todos os projetos estão parados. As obras da Estação Gávea da Linha 4 foram retomadas em abril de 2025. A Secretaria Estadual de Transporte e Mobilidade Urbana informa que já foram retiradas cerca de 45 mil toneladas de rocha e escavados 70 metros do túnel piloto. O investimento previsto para concluir a estação soma R$ 697 milhões, com previsão de inauguração para o segundo semestre de 2028.
Outro projeto aguardando avanço é o Contorno de Campos dos Goytacazes, pensado para retirar o tráfego pesado do centro da cidade. A obra nunca foi executada e, por isso, caminhões seguem circulando na malha urbana. O projeto deixou de ser uma obrigação imediata após alterações no contrato da BR-101 Norte, mas ainda prevê a elaboração do projeto executivo e licenciamento ambiental.
O cenário atual mostra o Rio de Janeiro convivendo simultaneamente com obras retomadas, projetos em estudo e empreendimentos que atravessam décadas sem sair do papel, impactando diretamente o transporte, a economia e a qualidade de vida da população.

