Desafios do transporte na rotina dos trabalhadores
O deslocamento diário entre casa e trabalho nas principais cidades do Rio de Janeiro tem se tornado uma barreira cada vez maior para os trabalhadores e para as empresas locais. Dados recentes apontam que o tempo médio gasto no trajeto ultrapassa duas horas por dia. Ônibus lotados, frota insuficiente, trânsito intenso e longas distâncias comprometem não apenas a qualidade de vida de quem depende do transporte público, mas também a produtividade das companhias da região.
Essas dificuldades foram o foco do quarto capítulo da série “O Rio pode mais”, veiculada pelo RJ2. A poucos dias das eleições, a equipe percorreu o estado para mapear os principais obstáculos ao desenvolvimento do Leste Fluminense e as potencialidades de cada localidade. Ao longo de cinco capítulos, a série revela como problemas estruturais, falta de mão de obra qualificada e outros entraves prejudicam o avanço econômico regional.
Rotina extenuante e impacto na produtividade
Em São Gonçalo, trabalhadores enfrentam jornadas que começam na madrugada. Cristiane Gomes, diarista, relata que sai de casa às 4h30 e precisa pegar três ônibus para chegar ao trabalho, repetindo o trajeto na volta. “É muita gente para pouco transporte”, resume ela.
Diomilson Fortunato, mecânico que reside em Belford Roxo e trabalha em Niterói, revela que acorda às 3h30 para evitar atrasos, chegando ao ponto de ônibus às 4h. Após enfrentar múltiplos ônibus, ainda caminha por ruas escuras até o local de trabalho. “É cansativo. Muito cansativo. Você dorme poucas horas por noite e tem pouco tempo com a família”, conta.
Essa mobilidade precária não afeta só os trabalhadores, mas também empresas que dependem de equipes e equipamentos circulando pela região. Um exemplo é uma empresa familiar que presta serviços para a indústria de óleo e gás em Niterói, cuja operação funciona como um miniestaleiro, precisando cumprir horários rigorosos para embarque em navios.
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Bernhard Falke, empresário do setor, explica que atrasos no transporte comprometem toda a operação: “Você perde o transporte, o navio, induz ineficiência e perda de produção”. O efeito cascata impacta desde o operador até os royalties estaduais, reduzindo receita e atividade econômica.
Infraestrutura limitada na Região dos Lagos
A Rodovia Niterói-Manilha é um eixo crucial para o deslocamento de cargas e trabalhadores, especialmente em São Gonçalo, que funciona como cidade-dormitório para muitos. Já na Região dos Lagos, onde o turismo é pilar econômico, os desafios se manifestam em setores estratégicos como o Aeroporto Internacional de Cabo Frio. Apesar de ter a segunda maior pista do estado e capacidade para voos nacionais e internacionais, o terminal opera em caráter emergencial desde o fim da concessão anterior.
Na última temporada, o aeroporto recebeu 77 voos diretos da Argentina, mas atualmente sua principal movimentação é ligada à indústria do petróleo, com embarques e desembarques de trabalhadores de plataformas. A prefeitura aguarda homologação para nova licitação, enquanto o gerente de Infraestrutura da Firjan, Isaque Ouverney, destaca o potencial do aeroporto para impulsionar o turismo e outras atividades econômicas locais.
Problemas básicos que emperram a hotelaria
Os municípios da Região dos Lagos, reconhecidos pelo Ministério do Turismo como destinos de excelência, sofrem com falhas crônicas em serviços essenciais. A ausência constante de água e energia elétrica prejudica o funcionamento de hotéis e pousadas, especialmente durante a alta temporada, quando a demanda cresce.
Laura Corrêa, gerente de uma pousada em Búzios, relata os transtornos causados por essas falhas: “Água e luz são itens básicos, mas que enfrentam problemas semanais, independentemente da temporada”. Para Thomaz Weber, dono de pousadas, as interrupções geram prejuízos financeiros e afetam diretamente a avaliação dos estabelecimentos, comprometendo a experiência do hóspede.
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Além do desconforto, os picos de energia danificam equipamentos essenciais como elevadores e motores, aumentando os custos de manutenção. A escassez de água, agravada na alta temporada, obriga os empresários a recorrerem a caminhões-pipa, que enfrentam dificuldades para acessar os estabelecimentos devido ao trânsito intenso.
Em situações extremas, algumas pousadas chegaram a usar a água das piscinas para manter o abastecimento, improvisando diante da falta de infraestrutura adequada. Para os proprietários, essas adversidades desviam o foco do atendimento e da melhoria dos serviços oferecidos.
Investimentos urgentes para destravar o potencial regional
Para a Firjan, o avanço econômico da região depende diretamente da melhoria da infraestrutura. Além do aeroporto de Cabo Frio, rodovias como a BR-101 e a RJ-106 (Amaral Peixoto) são fundamentais para conectar municípios, facilitar o transporte de cargas, o fluxo de trabalhadores e o turismo.
Isaque Ouverney ressalta que a BR-101 já passa por um novo ciclo de investimentos, com efeitos notórios em Itaboraí, mas destaca a necessidade de aportes em rodovias estaduais, especialmente a Amaral Peixoto, vital para o desenvolvimento do interior desses municípios.
Sem essas melhorias, o potencial econômico da região continuará limitado, prejudicando empregos, renda e o crescimento dos negócios locais.

