Niterói no centro da discussão ambiental
O desaparecimento da praia da Ilha da Conceição trouxe à tona uma questão fundamental: o que acontece quando a população perde o direito de tomar banho de mar? Essa é a provocação central do documentário “Quanta Reza Será Preciso para Um Simples Banho de Mar”, dirigido por Liliane Mutti, que retorna a Niterói para contar uma história marcada pela industrialização da Baía de Guanabara e suas consequências para as comunidades locais.
Estreia no Festival Filmambiente
Este é o primeiro filme a representar Niterói no Festival Internacional do Audiovisual Ambiental, o Filmambiente, onde será exibido pela primeira vez. O evento, que reúne cerca de 400 produções de 60 países, acontece a partir de terça-feira, com parte da programação no Cine Arte UFF. Além disso, o documentário terá sessão no Estação NET Botafogo, no Rio de Janeiro, no sábado (26), às 21h.
A diretora Liliane Mutti destaca como a cidade se tornou fonte constante de inspiração para seu trabalho. “Para mim, Niterói é cinema. Onde quer que eu olhe, vejo histórias para contar. Gosto de Jurujuba, do Caminho Niemeyer, de todo esse cenário que convida à ficção”, afirmou em entrevista ao A Seguir.
Um olhar crítico sobre o desenvolvimento
O filme aborda o impacto da construção da Ponte Rio–Niterói, inaugurada em 1974, durante o regime militar, questionando o que ficou fora da narrativa oficial de progresso. Liliane ressalta que o objetivo não é negar a importância da infraestrutura, mas refletir sobre as consequências para quem vive sob a ponte e para a preservação do território costeiro.
“O cinema pode resgatar memórias que ficaram invisíveis na imagem oficial do progresso. Essa reflexão é fundamental para evitar que erros similares se repitam em grandes obras futuras, como a Ponte Salvador–Itaparica, na Bahia”, explica a cineasta.
Raízes acadêmicas e afetivas
Formada pela Universidade Federal Fluminense (UFF), Liliane Mutti reforça sua conexão com Niterói ao participar do projeto apoiado pelo LUPA – Laboratório Universitário de Preservação Audiovisual da UFF. Para ela, filmar a Ilha da Conceição é reencontrar uma cidade escondida, marcada pela presença da ponte, dos estaleiros e da memória coletiva dos moradores.
“Passei anos atravessando aquela ponte, mas neste filme quis olhar para baixo, para quem vive ali, para o que existia antes. O cinema começa quando deixamos de admirar o monumento e passamos a enxergar as pessoas à sua sombra”, reflete a diretora.
Angelo Morse: a voz de Niterói no filme
A narrativa ganha uma dimensão especial com a participação de Angelo Morse, ator, humorista e artista plástico criado em Niterói. Conhecido por suas crônicas que misturam humor e crítica social, Morse traz um olhar afetuoso e irônico sobre as contradições locais.
Além de narrar, ele dialoga diretamente com o público, tornando o filme mais próximo da experiência cotidiana dos moradores. Em 2026, esteve no festival de humor Só Riso, em Niterói, consolidando seu papel como uma voz ativa na cena cultural da cidade.
Transformações e desafios da Baía de Guanabara
Filmado em preto e branco, o documentário percorre diferentes tempos e espaços da Baía de Guanabara, mostrando a convivência entre memórias dos banhos de mar, a atividade industrial e a pesca local. O filme expõe as profundas mudanças ambientais e sociais vividas pela região.
A Baía enfrenta décadas de poluição causada por urbanização desordenada, esgoto, resíduos industriais e ocupação irregular. Estudos do Ipea e do INEA confirmam que essas pressões comprometem não só o meio ambiente, mas também o lazer e as atividades pesqueiras, afetando diretamente a qualidade de vida das comunidades.
Uma memória que resiste
“Quanta Reza Será Preciso para Um Simples Banho de Mar” traz à tona a perda progressiva de um direito básico: o acesso ao mar. A diretora destaca que uma geração lembra de entrar no oceano diante de casa, enquanto outra cresceu sem essa possibilidade.
Esse apagamento físico e simbólico da praia reflete uma questão maior sobre memória, território e cidadania. O filme convida a refletir sobre a relação entre desenvolvimento, preservação ambiental e o direito das pessoas à cidade.
Produção e apoio cultural
O longa conta com patrocínio da Secretaria de Economia Criativa e da Secretaria das Culturas de Niterói, além do apoio do Instituto das Artes de Niterói, LUPA/UFF e CTAv – Centro Técnico Audiovisual do Ministério da Cultura. A produção é uma parceria entre a Toca Filmes, de Salvador, e as produtoras niteroienses Realiza Cultura e Jou Jou.
Detalhes da exibição
Quanta Reza Será Preciso para Um Simples Banho de Mar
Brasil | 79 min. | 2026
Direção: Liliane Mutti
Narração: Angelo Morse
Exibição: Filmambiente – Festival Internacional do Audiovisual Ambiental
Data: Sábado, 26 de setembro

