A Origem dos Blocos de Rua
Neste ano, os blocos de rua do carnaval carioca celebram um marco significativo: 120 anos de história. A origem dessa tradição remonta à eleição presidencial de 1906, onde Afonso Pena, candidato da coligação conhecida como “O Bloco”, conquistou quase 98% dos votos. Essa denominação logo caiu nas graças do povo e, a partir dela, surgiram os primeiros blocos carnavalescos, literários e esportivos. A informação é contextualizada no livro “Os blocos do carnaval carioca: o que são, o que dizem que são, o que podem ser e o que não são mais, pois já foram”, escrito pelo pesquisador Tiago Ribeiro.
Ribeiro destaca que o primeiro registro da atuação dos blocos no carnaval carioca foi publicado na edição de 18 de dezembro de 1906 do Jornal do Brasil, mencionando o recém-fundado Bloco dos Trepadores, no bairro da Zona Norte. Não demorou para que esse fenômeno se espalhasse: em 1907, já havia notícias sobre o Bloco Carnavalesco São José, em Recife, e, nos anos seguintes, surgiram outros, como o Bloco dos Democráticos de Cascadura (1908) e o Bloco Democrata de Botafogo (1909). Com o tempo, cordões, ranchos e sociedades foram se transformando, mas o bloco se consolidou como a principal forma de expressão carnavalesca.
A Diversidade dos Blocos
De acordo com Tiago Ribeiro, entre 1906 e 1910, apenas cinco blocos foram registrados, com características bem diferentes dos atuais, mais próximos às grandes sociedades. A real diversidade desses grupos começou a se estabelecer a partir da década de 1910. Nas palavras do pesquisador, “as discussões em torno do que é ou não é um bloco já existiam. Naquele tempo, o samba ainda não era o gênero nacional. Existiam blocos que tocavam castanholas, boleros, mazurcas e até tangos. O Bloco dos Acadêmicos Poetas, por exemplo, não cantava nem dançava, mas declamava poesia”. Essa pluralidade sempre fez parte da essência dos blocos cariocas.
O escritor Luiz Antonio Simas complementa afirmando que a diversidade dos blocos é intrínseca: “O que chamamos de bloco tem múltiplas dimensões. Existem blocos de embalo, blocos de sujos e até os de enredo, que eram muito populares nas décadas de 1920 e 1930.” Essa variedade reflete o ambiente cultural do Rio, que sempre foi dinâmico e repleto de influências.
Capacidade de Adaptação
O sucesso contínuo dos blocos está intimamente ligado à sua capacidade de se adaptar às mudanças culturais ao longo das décadas. Para Tiago Ribeiro, os blocos funcionam como uma “esponja” da sociedade, captando e reagindo a tudo ao seu redor. Nos anos 20 e 30, blocos de concurso se começaram a se aproximar dos ranchos, enquanto nas décadas posteriores, blocos de repartições públicas se assemelharam a grandes sociedades.
Hoje, a diversidade dos blocos também incorpora elementos da estética de festas contemporâneas, DJs e fanfarras, refletindo uma atenção constante às modas e questões sociais e políticas, tudo isso com uma boa dose de irreverência. “O humor é vital para manter essa tradição viva”, destaca Ribeiro.
A Importância dos Blocos no Carnaval Carioca
A expansão dos blocos no Rio é notável. Com 459 cortejos credenciados pela Riotur neste ano, a expectativa é de que 6,8 milhões de foliões tomem as ruas em busca de diversão. Essa quantidade e o tamanho dos blocos demonstram a vitalidade do carnaval de rua, mas também levantam preocupações sobre a organização do evento, que deve equilibrar a espontaneidade com a necessidade de infraestrutura.
Rodrigo Rezende, coordenador da Liga do Zé Pereira, comenta: “Há blocos que antes desfilavam com 200 pessoas e hoje já são 50 mil. É preciso um equipamento de som, banheiros químicos e um bom planejamento de trânsito para não causar caos. Essas medidas são necessárias para preservar a festa.” Ao mesmo tempo, ele defende o carnaval espontâneo e a existência de blocos não autorizados.
Reflexões sobre o Futuro dos Blocos
Comemorando 120 anos, os blocos de carnaval do Rio passaram por diversas transformações. O pesquisador Tiago Ribeiro analisa que, ao longo da história, surgiram boatos sobre a morte dos blocos. No entanto, após períodos de repressão, como durante a ditadura, novas formas de manifestação cultural emergiram com força. O sucesso de blocos como Bafo da Onça e Cacique de Ramos, que não participam de concursos, é um exemplo disso.
Luiz Antonio Simas levanta um ponto importante: a diferença entre megablocos e blocos tradicionais. Ele observa que muitos megablocos funcionam como shows, enquanto os blocos devem ser vistos como cortejos. Para Rezende, é crucial que os megablocos complementem os tradicionais, e não os substituam.
O jornalista João Pimentel ressalta a importância de manter vivas as manifestações espontâneas. “Devemos sempre valorizar o bloco que surge da vontade do povo, aquela organização informal que se forma de forma orgânica”, conclui.

