A Guerra e Seus Reflexos na Economia Brasileira
A recente escalada do conflito no Oriente Médio gera preocupações sobre o impacto na economia global e, consequentemente, na brasileira. Segundo a economista Míriam Leitão, embora o conflito não deva impedir uma possível redução da taxa de juros, ele divide opiniões entre os especialistas do mercado. A expectativa é que o Banco Central inicie o ciclo de cortes da taxa Selic, atualmente em 15% ao ano, com uma diminuição para 14,5% na próxima reunião, programada para breve.
Entretanto, a incerteza gerada pelo cenário internacional acende uma luz amarela sobre a reunião de abril, que acontece no final do mês. Os economistas se veem desafiados a prever a duração e a gravidade do conflito, que tem potencial para influenciar os preços do petróleo e outras commodities.
Efeitos no Preço do Petróleo e na Inflação
A inquietação do mercado se concentra na possibilidade de uma alta persistente do petróleo, que pode afetar a inflação no Brasil. Nos últimos meses, a inflação havia mostrado sinais de desaceleração, passando de 5,06% em fevereiro de 2025 para 4,44% em janeiro deste ano. No entanto, um aumento nos preços do petróleo pode gerar pressões inflacionárias a curto prazo.
“O aumento no preço do petróleo pode impactar diretamente o custo da gasolina, que por sua vez eleva os fretes e, em última instância, pressiona os preços ao consumidor”, explica Otávio Araújo, consultor sênior da Zero Markets Brasil. Para ele, o Banco Central pode optar por manter os juros altos ou reduzir o ritmo dos cortes para garantir a continuidade da trajetória de queda da inflação.
Dólar e Produtos Importados
Em momentos de instabilidade global, o dólar tende a se valorizar, o que torna os produtos importados mais caros no Brasil. Marco Mecchi, diretor de investimentos da Azimut Brasil Wealth Management, salienta que, caso o cenário de aversão ao risco se intensifique, a alta do dólar poderá agregar mais pressão inflacionária. No entanto, ele acredita que o conflito no Oriente Médio não deve adiar o início do ciclo de cortes da Selic no Brasil.
“Acredito que o Banco Central manterá o ritmo de redução de 0,5 ponto percentual nas próximas reuniões. Contudo, a chance de uma aceleração nesse corte é praticamente nula, dada a incerteza global que se instaurou”, afirma Mecchi.
Expectativas para o Futuro
No entanto, há divergências nas análises. Otávio Araújo sugere que o Copom (Comitê de Política Monetária) pode não iniciar os cortes em março e só considerar uma redução quando a situação do petróleo e do câmbio deixar de ser uma preocupação urgente. “Diante de um evento dessa magnitude, o Banco Central pode ser obrigado a adotar uma postura mais conservadora e manter a Selic em níveis elevados por um período mais longo”, acrescenta.
Segundo Yihao Lin, economista da Genial Investimentos, um aumento de 10% no preço do petróleo ao longo de um ano pode resultar em um aumento de até 0,5 ponto percentual no Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA). Nos modelos do Banco Central, a projeção de inflação pode subir de 3,2% para 3,5% caso o cenário se mantenha.
Conclusão: O Que Podemos Esperar?
A análise de Lin ainda considera o histórico de conflitos passados, como o de junho de 2025, que, apesar de breve, teve impactos limitados nos preços globais. “Se o atual conflito for curto, os efeitos na inflação podem ser contidos. No entanto, se a situação se prolongar, isso afetará diretamente as decisões de política monetária”, aponta.
Por fim, a economista-chefe do Inter, Rafaela Vitória, também aposta em uma redução da Selic na próxima reunião, mas reconhece que a incerteza trazida pelo conflito poderá complicar as projeções futuras, especialmente para os encontros programados para abril e maio, quando mais cortes são esperados.

