Varandão e a Persistência na Campanha Apesar da Condenação
Em agosto de 2025, uma sentença judicial condenou Fábio, conhecido como Varandão, mas isso não o impediu de continuar ativo na campanha política do ex-prefeito da cidade. Até as vésperas das eleições, seu perfil no Instagram exibia postagens de apoio explícito, incluindo uma foto dos dois abraçados com a hashtag “#TôComCanella”. A intervenção do Ministério Público Eleitoral (MPE) levou à exclusão do perfil, mas coube ao seu filho, Ryan, assumir o protagonismo na empreitada política da “família Varandão”.
O Papel de Ryan e a Atuação da “Família Varandão” em Belford Roxo
Em setembro, Ryan participou de ao menos nove eventos políticos entre reuniões, caminhadas e comícios, deixando claro o apoio da família a determinados candidatos na cidade. A presença do grupo paramilitar vinculado a eles tornou Belford Roxo um epicentro da infiltração do crime organizado nas eleições do Rio, cenário que reflete um padrão crescente em todo o estado, conforme revelado na série especial “Um tiro no pleito”.
O Contexto Criminal e as Consequências na Justiça Eleitoral
Quando Varandão se candidatou a vereador em 2024, ainda não havia sido condenado, mas já enfrentava acusações graves. O Ministério Público do Rio relata um episódio em que ele invadiu armado a festa de um empresário, intimidando os presentes para que desistissem de instalar um serviço de internet na região. Até então, a Justiça Eleitoral permitia candidaturas sob suspeita de vínculos criminais, desde que não houvesse condenação em segunda instância, conforme a Lei da Ficha Limpa.
Outros casos em Belford Roxo reforçaram a gravidade da situação. Eduardo Araújo, vereador aliado de Canella, buscava a reeleição mesmo condenado em primeira instância por integrar uma milícia responsável por homicídios para manter o controle local. Já Sérgio Accioly dos Santos, conhecido como Dinho Resenha, foi preso a dois meses da eleição de 2024 por negociar com traficantes do Terceiro Comando Puro (TCP) apoio político em áreas dominadas pela facção.
Leia também: Eleições no Rio: A Regra de Unificação Nunca Aplicada pela Justiça Eleitoral
Leia também: Eleições no Rio: Candidatos Repetem Disputa em Menos de Quatro Meses
Reação do Tribunal Regional Eleitoral e Novos Critérios
Diante desse quadro, o Tribunal Regional Eleitoral do Rio (TRE-RJ) criou um grupo de trabalho com as forças de segurança para barrar candidaturas ligadas ao crime organizado. Desde então, o órgão adotou critérios mais rigorosos, incluindo a impugnação de candidatos mesmo sem condenações em segunda instância, respaldado por entendimento do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) baseado no artigo 17 da Constituição, que proíbe organizações paramilitares em partidos políticos.
Em 2024, Varandão, Araújo, Dinho Resenha e outros oito candidatos foram impedidos de concorrer por ligação com milícias ou facções criminosas — um número cinco vezes maior que a soma das três eleições anteriores. No atual pleito, até a última sexta-feira, o TRE-RJ já indeferiu dez candidaturas por essas conexões.
Persistência dos Candidatos Barrados e a Atuação Política na Cidade
Apesar das impugnações, nomes como Varandão, Araújo e Dinho Resenha permanecem ativos na política local. Araújo, por exemplo, distribuiu material de campanha em apoio ao ex-prefeito Márcio Canella e mantinha foto de perfil no Facebook com a dupla Canella e Rueda até ser alvo de pedido de impugnação. Para o Ministério Público Eleitoral, a atuação desses ex-vereadores mostra que Canella se beneficia da estrutura paramilitar barrada pela Justiça para impulsionar sua candidatura.
Dinho Resenha, condenado em setembro de 2025 por corrupção eleitoral, integra o grupo político de Felipinho Ravis e Dr. Luizinho, ambos do PP. Ele aparece em reuniões com cabos eleitorais e está presente nos eventos da dupla em Belford Roxo.
Leia também: Quem Lidera a Disputa para Governador do Rio de Janeiro? Confira as Últimas Pesquisas
Leia também: Disputa Presidencial no Rio: Flávio Bolsonaro Lidera Frente a Lula em Nova Pesquisa Datafolha
Militância Armada na Campanha e a Atuação do MPRJ
Além dos candidatos barrados, a influência do crime organizado se estende a cabos eleitorais. Uma investigação do Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ) revelou que Matheus Ribeiro Ferreira, o Pim, apontado como número dois da quadrilha que atua nos bairros Xavantes e São Francisco, participou diretamente em eventos de campanha do vereador Matheus Ricardo de Oliveira, o Matheus Igual a Você (Republicanos), que buscava o terceiro mandato consecutivo.
Em junho de 2024, durante uma operação do 39º BPM, Pim fugiu ao identificar uma viatura descaracterizada, tentando se desfazer da arma que portava. Posteriormente, a polícia localizou sua residência com adesivos da campanha do vereador. Essa ação evidencia a confluência entre crime organizado e pleito eleitoral em Belford Roxo.
Resposta Oficial e Próximos Passos
O ex-prefeito Canella afirmou que os milicianos sentenciados presentes nas campanhas eram secretários do governo anterior, seu adversário político na cidade, e que foram exonerados ao tomar conhecimento das condenações. Até o momento, O GLOBO não conseguiu contato com os demais envolvidos para esclarecimentos.
O panorama eleitoral em Belford Roxo reflete a disputa institucional entre a Justiça Eleitoral, que endurece critérios para barrar a infiltração do crime, e grupos paramilitares que tentam manter influência política. O desenrolar das decisões do TRE-RJ e do MPE será determinante para o fortalecimento da legalidade no processo eleitoral da Baixada Fluminense.

