Iniciativas para Saúde Indígena
Brasília (DF) – Claudecir Antônio Horácio, de 53 anos e pertencente à etnia Baré, fez uma longa jornada desde sua aldeia na comunidade Itapereira, em São Gabriel da Cachoeira, Amazonas, até Manaus para realizar uma cirurgia de vesícula. A viagem, que começou ainda de madrugada, durou mais de um dia de lancha. No Hospital Universitário Getúlio Vargas, da Universidade Federal do Amazonas (HUGV-Ufam), ele encontrou a continuidade de um tratamento que não poderia ser realizado em sua terra natal.
Outra história é a de Ana Kássia Honório, de 32 anos, indígena da Aldeia Wassu Cocal, em Joaquim Gomes, Alagoas. Após passar por gestações complicadas devido à hipertensão, Ana se viu em necessidade de uma cesariana emergencial, seguida de um desligamento das trompas. Ela compartilhou sua experiência positiva no Hospital Universitário Professor Alberto Antunes, da Universidade Federal de Alagoas (HUPAA-Ufal), onde disse ter sido bem acolhida e atendida por toda a equipe.
Casos como os de Claudecir e Ana Kássia ressaltam a relevância dos 45 hospitais universitários federais que compõem a Rede HU Brasil, presentes em todas as regiões do Brasil. Em homenagem ao Dia dos Povos Indígenas, celebrado em 19 de abril, especialistas da HU Brasil discutem a necessidade de um cuidado que não apenas apresente capacidade técnica, mas que também leve em consideração a sensibilidade cultural. Essa abordagem está em sintonia com a Política Nacional de Atenção à Saúde dos Povos Indígenas (PNASPSI), criada pelo Ministério da Saúde em 2002.
Articulação para Continuidade da Assistência
Para assegurar um atendimento qualificado e humanizado, a Rede HU Brasil estabeleceu os Comitês de Saúde Indígena (CSIs). Esses comitês atuam como intermediários entre os hospitais universitários e os Distritos Sanitários Especiais Indígenas (DSEIs), facilitando o acesso dessa população a serviços de média e alta complexidade, incluindo consultas e exames especializados.
Erika Fernandes, chefe da Divisão de Enfermagem do Hospital Universitário da Universidade Federal do Amapá (HU-Unifap), ressalta que a atuação integrada dos comitês é fundamental para garantir não apenas acesso, mas a continuidade do cuidado, respeitando as particularidades de cada etnia e território. Segundo Erika, os comitês facilitam a comunicação entre os serviços, organizando fluxos e evitando a fragmentação do atendimento.
Marcelle Collyer, coordenadora do Comitê de Saúde Indígena do Hospital Universitário da Universidade Federal de Roraima (HU-UFRR), acrescenta que seu hospital possui um protocolo único para o atendimento à população indígena, com leitos e uma unidade de internação dedicada. O acesso é regulado de acordo com a etnia e a condição de indígena, o que torna o serviço mais sensível e adequado.
Respeito às Práticas Culturais
Marcelle também destacou a importância de respeitar a cultura indígena durante o atendimento, integrando ciência e tradições. O hospital possui um protocolo que considera rituais e medicinas indígenas, permitindo que, quando necessário, um pajé ou xamã esteja presente durante os atendimentos. Além disso, cuidados sensíveis, como o manejo pós-óbito, são realizados com foco na dignidade e no respeito cultural.
Messias de Jesus, enfermeiro especializado em Saúde Indígena do HU-Unifap, enfatiza que esse modelo de atenção é essencial para organizar o serviço em sintonia com as realidades culturais e geográficas dos povos indígenas. Ele acredita que a presença de equipes multiprofissionais e a mediação intercultural com intérpretes facilitam a comunicação e contribuem para o sucesso dos tratamentos.
Avanços e Acesso aos Serviços Especializados
Os CSIs têm contribuído significativamente para a articulação entre instituições e ampliaram as estratégias de acesso aos serviços especializados. A HU Brasil também promove mutirões de atendimento em diversas regiões do país e tem trabalhado para expandir serviços nos ambulatórios.
Um exemplo de inovação é a implementação do serviço de Telessaúde no HUGV-Ufam, que permite oferecer assistência a toda a população indígena do estado, que é a maior do Brasil. A vice-coordenadora do Comitê de Saúde Indígena do HUGV-Ufam, Socorro Lobato, comentou sobre a parceria com a Marinha do Brasil, que possibilitou a realização de expedições de atendimento em áreas de difícil acesso.
Sobre a Rede HU Brasil
Desde 2014, o HUPAA-Ufal integra a Rede HU Brasil, que foi criada pela Lei nº 12.550/2011 sob a gestão do Ministério da Educação (MEC). Com 45 hospitais universitários federais sob sua administração, a HU Brasil tem como objetivo oferecer uma gestão de excelência e, em 2026, passou a adotar seu novo nome que reflete sua essência e compromisso com a sociedade.

