Rios europeus em níveis críticos
O calor intenso e a ausência prolongada de chuvas estão afetando de forma severa alguns dos rios mais importantes da Europa. Em vários trechos, as águas despencaram a níveis historicamente baixos, situação tão grave que pode ser observada por imagens de satélite. Essas fotografias mostram os cursos d’água reduzidos a faixas estreitas, serpenteando por terrenos secos e revelando extensas margens e bancos de areia que normalmente ficam submersos.
Impactos diretos na economia e no cotidiano
As consequências são palpáveis: esses rios são essenciais para o transporte de mercadorias, geração de energia hidrelétrica, resfriamento de usinas e atração turística, além de serem habitats fundamentais para a biodiversidade local. A atual seca prolongada e as ondas sucessivas de calor drenaram a umidade do solo e dos rios, comprometendo esses serviços vitais. Destacam-se o Danúbio e o Reno, dois dos principais rios do continente, que enfrentam níveis recordes de escassez.
O Danúbio, que passa por 10 países da Alemanha ao Mar Negro, atingiu sua menor cota já registrada na Hungria, especialmente em Budapeste, onde os níveis caíram para cerca de 10 cm, superando o recorde anterior de 33 cm de 2018. A cidade se prepara para temperaturas acima de 37,7 °C, enquanto uma nova onda de calor avança pela Europa Central e Oriental, elevando a preocupação com níveis ainda menores.
Crise energética na Hungria e Romênia
Esse encolhimento do Danúbio gerou uma crise energética na Hungria. A usina nuclear de Paks, que produz quase metade da eletricidade do país e depende da água do rio para seu resfriamento, opera atualmente com apenas 10% da capacidade, após desligar todos os seus reatores, exceto um. O risco de paralisação total é real se o nível continuar a cair. Em resposta, o primeiro-ministro Péter Magyar agradeceu a população pelas reduções voluntárias no consumo energético durante os horários de pico.
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Na Romênia, a situação também é crítica. As autoridades recorreram ao uso de explosivos para abrir caminho em rochas e tentar redirecionar a água do Danúbio para a única usina nuclear ainda ativa em Cernavodǎ. Além disso, há planos para afundar barcaças carregadas de pedras em um braço do rio, criando um dique temporário para aumentar o fluxo de água para a usina, segundo informações da Reuters.
Turismo e descobertas arqueológicas afetados
O turismo fluvial sofre impactos diretos com a crise hídrica. Serviços de cruzeiros foram cancelados ou alterados, como no caso de um navio que encalhou em um banco de areia no Danúbio, na Bulgária. A retração do rio também tem revelado vestígios históricos, como restos de um mamute no norte da Bulgária e destroços de um navio de guerra nazista na Sérvia, evidenciando o quanto a baixa dos rios está expondo o fundo dessas vias navegáveis.
Reno e outros rios em situação crítica
O Reno, que nasce nos Alpes Suíços e deságua no Mar do Norte, também enfrenta níveis alarmantes. A combinação de baixa precipitação de neve nos Alpes, falta de chuvas e cinco ondas de calor consecutivas contribuiu para o cenário atual, conforme explica o hidrologista Massimiliano Zappa, do Swiss Federal Institute for Forest, Snow and Landscape Research. Em pontos críticos, como Kaub, próximo a Coblença, os níveis chegaram a 23 cm, batendo recordes anteriores de 2018.
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Devido ao baixo volume de água, navios comerciais foram obrigados a reduzir drasticamente suas cargas, chegando a 80%, para evitar encalhes. Isso afeta diretamente as cadeias de suprimentos, tornando o transporte mais caro e complexo. Empresas químicas, como a Lanxess, já adaptam suas operações, priorizando transporte terrestre em substituição às embarcações.
Outros rios europeus também sofrem
Além do Danúbio e do Reno, outros rios como o Po, na Itália, e o Loire, na França, apresentam níveis excepcionalmente baixos em trechos variados. Cientistas alertam que esses recordes negativos tendem a ser superados com frequência crescente, à medida que a crise climática avança.
Alerta científico e caminhos para o futuro
Richard Allan, professor de ciência do clima na Universidade de Reading, destaca que o que se vê hoje é apenas o começo dos extremos hidrológicos que o aquecimento global trará. A gestão dos recursos hídricos será cada vez mais complexa e desafiadora. Para conter esse cenário, ele reforça a necessidade urgente de reduzir as emissões de gases de efeito estufa e adotar políticas sustentáveis de longo prazo, ao invés de ações pontuais e emergenciais.

