A Análise de Bárbara Carine sobre a Identidade Parda
A definição de negro, conforme o Estatuto da Igualdade Racial, abrange as categorias de pretos e pardos. No seu novo livro, intitulado “Raça Social”, a educadora baiana Bárbara Carine se dedica a explorar a autonomia do termo “pardo” dentro da construção da identidade racial no Brasil. Segundo Carine, “a raça no Brasil é considerada social, estética, funcionando como uma estampa”. Em uma entrevista, a autora discorre sobre como a interpretação do termo “pardo” como uma categoria distinta da população negra não apenas fragmenta a luta racial, mas também pode provocar impactos institucionais significativos.
As políticas de cotas, reconhecidas como essenciais para promover a equidade em ambientes acadêmicos e profissionais, estariam entre as primeiras a sofrer os efeitos dessa fragmentação. “Quando pessoas tentam sequestrar o termo ‘pardo’ e ainda se beneficiar das políticas públicas, elas estão corrompendo essa ferramenta”, enfatiza Carine.
O Papel das Políticas Afirmativas
A professora, que já participou de comissões de heteroidentificação, teve a responsabilidade de avaliar se candidatos às cotas raciais em concursos, universidades ou empregos apresentam características fenotípicas compatíveis com suas autodeclarações. Para Carine, as frequentes tentativas de fraudar as políticas afirmativas ressaltam a urgência em aprimorar os critérios de avaliação.
Com 39 anos, Carine é a idealizadora do Colégio Maria Felipa, a primeira escola afro-brasileira reconhecida pelo MEC (Ministério da Educação), com sedes em Salvador e no Rio de Janeiro. Além disso, foi laureada com o prêmio Jabuti de educação em 2024 pela obra “Como Ser um Educador Antirracista”.
A Inspiração por Trás de “Raça Social”
A inspiração para “Raça Social” surge do crescente debate em torno da “parditude”, um conceito que, atualmente, ganha destaque especialmente nas redes sociais. Os defensores dessa ideia pleiteiam o reconhecimento da identidade parda como um grupo étnico-racial autônomo, que deve ser associado à miscigenação, e a implementação de políticas específicas voltadas para essa população.
Conforme uma pesquisa do Datafolha realizada em 2024, cerca de 60% dos brasileiros que se identificam como pardos não se consideram negros. Essa nuance na identificação é ainda mais complexa quando se trata de pessoas com ascendência indígena. Em sua obra, Carine argumenta que a criação da categoria dos mestiços pode levar a uma diminuição estatística das populações indígenas, que atualmente representam apenas 0,8% da população do país.
Reconhecimento Legal e Social dos Mestiços
Atualmente, estados como Amazonas, Mato Grosso, Paraíba e Roraima têm reconhecido os mestiços como um grupo étnico-racial independente, instituindo o “Dia do Mestiço” em 27 de junho por meio de legislações estaduais. Carine observa que “mestiço por mestiço, grande parte da população brasileira é. Temos um expressivo número de pessoas que se identificam como pardas, embora sejam socialmente lidas como brancas, simplesmente por serem mestiças”.
Críticas à Exclusividade da Identidade Racial
O ponto central de “Raça Social” é uma crítica à noção de que a miscigenação, por si só, seria um critério suficiente para definir o pertencimento racial, excluindo, assim, grupos como negros e indígenas. Carine se refere àqueles que adotam essa lógica como “neopardos”, ou novos pardos, sugerindo essa seria uma maneira de evitar a identificação como negros, ao mesmo tempo em que se preservam certos privilégios.
Caminhos para o Futuro da Luta Antirracista
A autora também sugere caminhos para prevenir o esvaziamento das pautas raciais. Para ela, o diálogo sobre identidade deve ser conduzido de forma impessoal, respeitando as conquistas históricas dos movimentos negros organizados. Carine argumenta que a fragmentação das terminologias não é a solução mais eficaz para combater o racismo sistêmico, uma questão que deve ser encarada como uma responsabilidade coletiva, envolvendo tanto negros quanto não negros, na construção de uma sociedade mais justa e igualitária.

