Contexto e mudanças na moradia parlamentar
Em 1959, último ano em que o Rio de Janeiro figurava como capital do país, deputados federais eleitos residiam na cidade em imóveis pagos com recursos próprios, sem auxílio-moradia, conforme relato do baiano Waldir Pires em entrevista ao GLOBO. Um levantamento realizado a partir de uma caderneta da Câmara dos Deputados, que funcionava no Palácio Tiradentes, revela os endereços de 336 deputados federais daquela legislatura, incluindo suplentes em exercício. A mudança para Brasília ocorreu em abril de 1960, marcando o fim da capital carioca como sede do poder.
A predominância de Copacabana como endereço parlamentar
O bairro de Copacabana abrigava a maior parte dos deputados, com 150 moradores registrados, refletindo sua imagem como bairro elegante e desejável na década de 1950. A historiadora Marly Motta, da Fundação Getúlio Vargas (FGV), destaca que Copacabana era o ponto de encontro da elite influente, símbolo da bossa nova e do cinema novo, consolidando-se como o bairro da moda da época.
Entre os parlamentares que residiam em Copacabana, destacam-se José Sarney, então com 29 anos e eleito pela UDN, que ocupava um apartamento na Rua Bolívar. O economista Paulo Jorge Dias Elias, atual morador do imóvel, confirma a propriedade anterior do político maranhense. Outro deputado do mesmo partido, Tenório Cavalcanti (UDN), morava na Rua Sá Ferreira, embora sua residência mais conhecida fosse uma casa em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, usada como base política e pessoal.
Mario Tamborindeguy (PSD) também tinha residência em Copacabana, no Edifício Chopin, na Avenida Atlântica. Sua família mantém o imóvel até hoje. A ex-deputada estadual Alice Tamborindeguy recorda que a infância e juventude foram marcadas pela convivência no bairro, com o mar e a piscina do Copacabana Palace como referência.
Outros bairros e figuras políticas de destaque
Além de Copacabana, outros bairros como Centro (46 deputados), Flamengo (31), Botafogo (20), Ipanema (20), Laranjeiras (15) e Leblon (14) também abrigavam parlamentares. No Flamengo, residiam figuras como Jânio Quadros, Carlos Lacerda e Antônio Carlos Magalhães (ACM). Jânio optou por uma cobertura com vista para a Baía de Guanabara e o Pão de Açúcar, buscando conforto durante seu mandato.
Carlos Lacerda, também morador do Flamengo, ocupava uma cobertura no 11º andar de um edifício na Praia do Flamengo. Após sofrer um atentado na Rua Tonelero, em Copacabana, seu endereço foi mantido em sigilo na caderneta da Câmara. Marcos Guimarães, servidor público e morador do prédio, relata que a presença de Lacerda influenciava a rotina, com reforço de segurança frequente.
Dinâmica política e convivência entre deputados
A ausência de auxílio-moradia e a proximidade com o Legislativo motivavam alguns deputados a se hospedarem em hotéis do Centro, como o Serrador e o Copacabana Palace. A convivência entre parlamentares de partidos rivais, como a UDN e o PTB, era comum, exemplificada pela moradia compartilhada entre Antônio Carlos Magalhães (ACM) e Alaim Mello na Rua Marquês de Abrantes, apesar das diferenças partidárias.
Marly Motta ressalta que a rivalidade partidária, embora presente, não atingia o grau de polarização observado atualmente. Os parlamentares viviam no Rio com suas famílias, integrando-se à rotina da cidade e participando da vida cultural e social local, ao contrário da percepção que se tem hoje sobre Brasília como local de trabalho restrito.
A resistência à transferência para Brasília e seus desdobramentos
A mudança da capital para Brasília enfrentou resistência entre os parlamentares, que mantiveram vínculos com o Rio por meio de residências e atividades políticas. Projetos para adiar a mudança foram debatidos no Congresso, mas sem sucesso. A transferência definitiva dos deputados para o Planalto Central só se consolidou nos anos 1970, em meio ao regime militar, período em que também ganharam força as discussões sobre a fusão da Guanabara com o Estado do Rio, concretizada em 1975.
Este panorama revela a complexidade institucional e social da época, destacando o Rio de Janeiro não apenas como capital administrativa, mas como centro pulsante das relações políticas e culturais brasileiras até a transferência oficial do poder para Brasília.

