O protagonismo feminino no assentamento Campo Alegre
Déborah Figueiredo da Silva, uma das fundadoras da Associação Geral dos Agricultores de Campo Alegre, lembra o início de sua trajetória no assentamento que abrange partes de Queimados e Nova Iguaçu, no Rio de Janeiro. Vinda de uma área urbana e com experiência em educação, ela se envolveu com a educação rural a partir dos anos 2000, quando ingressou no assentamento. A partir de sua aproximação com Sônia Martins, agente da Comissão Pastoral da Terra (CPT) que acompanhava o território, começaram a surgir projetos voltados para a educação e o fortalecimento dos coletivos de mulheres presentes em cada regional do assentamento.
Oficinas e saúde: a base para o fortalecimento das mulheres
O assentamento Campo Alegre é dividido em seis regionais, e os coletivos femininos já estavam presentes quando a CPT entrou para apoiar e ampliar a visibilidade dessas mulheres. Segundo Elaine Ferreira, da coordenação da CPT ES/RJ, a parceria foi fundamental para que as agricultoras assumissem protagonismo em seus territórios. A interação com a CPT e o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) ampliou a pauta das mulheres, que passaram a abordar a saúde feminina e infantil — uma lacuna evidente na ausência de políticas públicas locais.
Com o apoio da Rede Fitovida, que valoriza o uso de plantas medicinais e saberes tradicionais, nasceu o grupo “Sementes da terra”, focado em fitoterapia. Déborah destaca que integrantes da Pastoral da Saúde compartilharam práticas como a preparação de garrafadas e shampoos naturais, multiplicando o conhecimento entre as mulheres do assentamento.
Educação e intercâmbio de saberes no campo
Além da saúde, a educação também avançou com o ingresso de jovens do assentamento na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) por meio do Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária (Pronera). Neusa Maria Avelino, moradora da regional Marapicu, ressalta que as oficinas de ervas medicinais, artesanato e produção de sabão são também momentos de solidariedade e troca entre as agricultoras.
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Fonte: agazetadorio.com.br
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Neusa chama a atenção para a necessidade de ampliar a voz das mulheres no meio rural, onde ainda prevalece a ideia de que os homens são os protagonistas. Ela afirma que muitos encontros servem para despertar a consciência sobre direitos de saúde e autonomia, incentivando as mulheres a se envolverem ativamente na luta por melhores condições e reconhecimento.
Conquistas e participação política das agricultoras
O espaço criado pelas oficinas e coletivos tem sido essencial para que as mulheres ocupem posições de liderança dentro das associações do assentamento. Elaine Ferreira observa que, no passado, as mulheres participavam apenas para organizar assembleias ou garantir quórum, mas hoje assumem papéis centrais nas discussões e reivindicações, especialmente nas áreas de saúde e direitos.
Marcha das Mulheres Negras na Baixada Fluminense
Em 5 de julho, agricultoras do assentamento Campo Alegre participaram da II Marcha das Mulheres Negras da Baixada Fluminense, realizada em Queimados. Com o lema “Não queremos ser mais uma; saúde importa, nossos corpos resistem”, cerca de 300 mulheres marcharam por autocuidado, políticas públicas de saúde e contra as violências de gênero e racial.
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Fonte: amapainforma.com.br
A mobilização, organizada por entidades de defesa dos direitos humanos em parceria com a CPT-RJ e a Casa Dalva, teve temas definidos a partir de rodas de conversa com mulheres de diferentes municípios. A CPT, em colaboração com a ONG Criola, destacou a pauta da saúde com o projeto “saúde das mulheres Negras Cis e Trans”, que atua tanto em territórios rurais quanto urbanos na Baixada Fluminense, incluindo o assentamento Campo Alegre.
Além da saúde, a marcha trouxe à tona outras questões como desaparecimento forçado, desigualdades e violência, e contou com apresentações culturais e feira agroecológica com produtos das agricultoras locais. Sônia Martins reforça que a marcha vai além do aspecto cultural: é uma ação profética que denuncia arbitrariedades e reivindica direitos no estado do Rio de Janeiro.
O impacto das ações no cotidiano das mulheres do campo
As ações promovidas nos coletivos do assentamento Campo Alegre, em Iguaçu (RJ), têm ampliado o acesso das mulheres a saberes e práticas essenciais para a saúde, autonomia e protagonismo. A articulação entre grupos, a valorização do conhecimento tradicional e a participação em mobilizações como a Marcha das Mulheres Negras refletem um movimento crescente que busca transformar a realidade feminina no campo, garantindo direitos e visibilidade.

