Movimento de mulheres negras impulsiona mudanças no SUS
O projeto Saúde das Mulheres Negras, criado pela ONG Criola em parceria com 42 organizações comunitárias do Rio de Janeiro, atua diretamente para fortalecer o Sistema Único de Saúde (SUS) com base nas demandas reais dos territórios. A iniciativa busca ampliar a participação das mulheres negras na atenção primária, enfrentando desigualdades históricas que afetam essa população.
Duas estratégias centrais sustentam o projeto: a formação e mobilização de lideranças locais sobre os determinantes sociais da saúde e os direitos, e a incidência política junto aos órgãos e unidades de saúde para garantir acesso a vacinas e exames preventivos. Esse trabalho conjunto cria uma vigilância popular, fortalecendo a atuação dessas mulheres no controle da qualidade do atendimento.
Impactos concretos na saúde das mulheres negras
Entre os resultados práticos, destaca-se a conquista do acesso à vacina contra o HPV em uma unidade de saúde que antes não a disponibilizava. Além disso, as mulheres negras passaram a ocupar espaços em conselhos gestores, ampliando sua voz nas decisões públicas. Nathália Ribeiro, líder do projeto e especialista em Política e Gestão de Saúde Social, ressalta a urgência de um olhar racializado no SUS para mitigar os desfechos negativos que atingem principalmente mulheres negras em áreas vulneráveis do Rio de Janeiro.
O projeto atua em nove municípios da Região Metropolitana, incluindo a capital, onde vivem cerca de 1,5 milhão de mulheres negras cis e trans. Até o momento, já foram registradas participações em mais de 240 conselhos e 440 ações em unidades básicas de saúde, evidenciando a dimensão e a força da mobilização.
Olhar racializado para reduzir desigualdades na saúde pública
Ao analisar dados de saúde, fica claro que as mulheres negras apresentam maiores índices de mortalidade materna e doenças crônicas, como diabetes e hipertensão. Essa realidade está vinculada a desigualdades territoriais e socioeconômicas históricas, que marginalizam a população negra em áreas periféricas. A alimentação mais acessível, porém ultraprocessada, agrava o quadro, aumentando a incidência dessas enfermidades.
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O projeto enfatiza a importância de reconhecer essas desigualdades e garantir que as mulheres negras tenham acesso digno aos direitos de saúde, valorizando sua experiência e necessidades específicas.
Formação e mobilização para fortalecer direitos na atenção primária
Uma das bases do projeto é formar as mulheres negras para que compreendam o que é saúde, seus direitos dentro do SUS e o papel da Unidade Básica de Saúde (UBS) como porta de entrada para o sistema. Essa conscientização permite que elas exijam o atendimento adequado e cobrem melhorias, ampliando o acesso a serviços essenciais.
Além disso, a iniciativa busca pressionar por mudanças estruturais no SUS, reforçando a necessidade de olhar integral para a saúde da mulher negra, que vai além do cuidado ao corpo gestante, abrangendo vacinação, acompanhamento de doenças crônicas e atenção psicossocial.
Incidência política nas comunidades e nas unidades de saúde
O projeto mantém diálogo ativo não só com as UBS, mas também com CRAS, CREAS e secretarias de saúde. As mulheres organizam-se para cobrar melhorias e participar das decisões locais. Em Belford Roxo, por exemplo, a mobilização levou à disponibilização da vacina contra HPV após pressão direta junto à secretaria de saúde.
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Outra estratégia é levar a UBS para dentro de territórios quilombolas, facilitando o acesso de populações isoladas. Nessas ocasiões, a equipe médica realiza consultas, aferição de pressão e curativos, enquanto o grupo aproveita para discutir racismo estrutural e estimular a sensibilidade dos profissionais às especificidades locais.
Desafios na implementação da Política Nacional de Saúde Integral da População Negra
Apesar dos avanços, persistem obstáculos como a fragilidade dos dados nos prontuários eletrônicos, muitas vezes sem registro correto da raça ou sem autodeclaração. Essa lacuna prejudica o monitoramento dos indicadores de saúde, como a mortalidade materna, que ainda atinge desproporcionalmente mulheres negras no Rio de Janeiro.
Outro desafio está na formação contínua dos profissionais, que enfrentam sobrecarga e, em alguns casos, reproduzem preconceitos, como o racismo religioso. Em territórios conservadores, lideranças de matriz africana já foram orientadas a diminuir a expressão de sua fé, evidenciando a necessidade urgente de educação antirracista no sistema de saúde.
Essas questões reforçam a importância de fortalecer a formação, a mobilização e o diálogo entre comunidades e gestores para que o SUS seja efetivamente inclusivo e atenda à população negra com dignidade e respeito.

