Uma nova perspectiva sobre a arte transgênera
O museu de favela (MUF), no Rio de Janeiro, inaugura em 13 de novembro às 14 horas a exposição coletiva TRANSposição, que apresenta 28 obras de 13 artistas, intelectuais e fazedoras de cultura trans. A mostra, gratuita e inédita, é resultado de um mapeamento dedicado à produção artística e intelectual da comunidade transgênera brasileira, reunindo diferentes linguagens para discutir temas como violência, identidade, espiritualidade, memória e direitos.
Idealizada por Lu Oliveira, artista, curadora e pesquisadora, a iniciativa traz à tona a maneira como a comunidade trans desafia as estruturas coloniais tradicionais ao propor novas formas estéticas, políticas e afetivas de existir e se representar. “É a partir dessas contribuições que a TRANSposição expõe o seu acervo e convida a todas que desejam ver, perceber e reverenciar trajetórias trans”, ressalta a curadora.
Pesquisa, preservação e resistência
O projeto curatorial TRANSposição foi lançado oficialmente em 2025, no Espaço Cultural do Centro de Ciências Humanas e Sociais da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (CCH/Unirio). Desde então, desenvolve ações que incluem pesquisa, preservação, documentação, comunicação e educação, baseadas na metodologia própria chamada Desmontagem Museológica.
A exposição no MUF é financiada pela Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa do Rio de Janeiro (SECEC/RJ), por meio do edital Fluxos Fluminenses, com recursos da Política Nacional Aldir Blanc (PNAB) do Ministério da Cultura (MinC).
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Fonte: edemossoro.com.br
Três eixos narrativos que cruzam arte e vivência
A mostra se estrutura em três eixos narrativos que articulam denúncias, referências ancestrais e experiências cotidianas. O primeiro, “O silêncio dos inocentes não será perdoado”, questiona a omissão diante da transfobia e desigualdade social, com trabalhos como “Ordem e Progresso” e “A Geógrafa”, de Agrippina Manhattan, a série de gravuras “Sem nome e sem endereço”, de Agatha Maria, além da instalação “Cristo das pobres oprimidas prostitutas”, de Lu Oliveira.
O segundo eixo, “TransAncestralidade”, relaciona genealogia, espiritualidade e memória. Entre as obras, destacam-se “Filtro de memória”, de Milu Almeida, gravuras de Travadon4 e o audiovisual “Flores para Geni”, de Alma Flora e Amber Blenda. Essas criações evocam ancestralidades negras, afeto e acolhimento, ao mesmo tempo em que enfrentam as disputas sobre a representação de corpos e identidades dissidentes.
Por fim, “Nascida no subúrbio nos melhores dias” celebra o cotidiano e a vida na periferia, trazendo à tona a visualidade periférica, o trabalho, o lazer e a prosperidade ligada a esse território. As “Sementeiras Radicais”, de Rastros de Diógenes, são esculturas em argila e sementes de milpa, inspiradas em técnicas ancestrais de cultivo e reflorestamento, que dialogam com a ideia de um território ecologicamente equilibrado e socialmente justo.
Elisa do Talho utiliza lambe-lambe, grafite e pixo para marcar o território com a arte urbana, enquanto Jad Correia apresenta desenhos e pinturas cheios de referências à moda e à beleza, fruto da imaginação que nasce da favela para o mundo. “Quando me lembrei que já fui Rio”, de Agatha Maria, resgata a genealogia da migração feminina, reconstruindo memórias essenciais por meio dos afetos e dos lugares que formam a identidade. Para Nego Bispo, o rio simboliza um caminho de volta ao que vive no coração.
Um convite à escuta e à transformação
Ao reunir trajetórias diversas, TRANSposição amplia a visibilidade da produção cultural trans, convidando o público a questionar percepções naturalizadas sobre gênero, violência e pertencimento. A exposição transforma o espaço museológico em um ambiente de escuta, reflexão crítica e reconhecimento, reafirmando o papel da arte como instrumento de memória e transformação social.
A mostra fica em cartaz até 22 de janeiro de 2027, com entrada gratuita, e destaca a importância de dar voz e espaço às narrativas transgêneras dentro do panorama cultural do Rio.

