Touradas em Niterói: um capítulo pouco lembrado
Poucos sabem, mas Niterói já foi palco de touradas, eventos que atraíram multidões e chegaram a dar à cidade o apelido de “Sevilha Fluminense”. Durante décadas, diferentes bairros da cidade, como o Centro, Barreto e São Francisco, além de áreas vizinhas em São Gonçalo, receberam espetáculos com touros que encantavam moradores e visitantes. A travessia da Baía de Guanabara pelo público do Rio de Janeiro reforçava a circulação cultural entre as duas cidades, tornando essas apresentações um fenômeno local e regional.
A pesquisa que revela as raízes culturais e urbanas das touradas
Esse panorama é detalhado na pesquisa do historiador Victor Andrade de Melo, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e coordenador do Banda d’Além: Laboratório de História de Niterói e História Fluminense. Para ele, estudar as touradas é mais do que resgatar uma forma de entretenimento desaparecida. É entender as profundas mudanças sociais, culturais e urbanas pelas quais Niterói passou entre o fim do século XIX e as primeiras décadas do século XX.
Victor destaca que o tema surpreende muitos, já que a presença das touradas no Brasil, especialmente em Niterói, é pouco conhecida. “Muita gente não sabe que houve touradas no Brasil, e houve muitas touradas no Brasil, e muita gente não conhecia essa faceta da história de Niterói”, afirma.
O espetáculo das touradas e seu contexto histórico
A tauromaquia, tradição com raízes na Península Ibérica, envolve o confronto entre touros e participantes em arenas, com elementos clássicos como capas e espadas. Embora hoje essas práticas sejam alvo de críticas por questões de bem-estar animal, no passado eram formas legítimas de entretenimento público. Foi nesse cenário que as touradas chegaram a ocupar um espaço significativo na vida cultural de Niterói e São Gonçalo.
Das primeiras arenas à expansão pela cidade
O livro “A Sevilha Fluminense”, de Victor Andrade de Melo, registra que o primeiro episódio isolado de tourada em Niterói ocorreu em 1839, mas a prática se consolidou em 1892, permanecendo até 1928. Foram mapeadas 13 praças de touros, distribuídas em locais estratégicos como Centro, Barreto, São Francisco e Neves, em São Gonçalo.
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Fonte: daquidemanaus.com.br
Conforme a cidade crescia, as touradas migravam para novas áreas. “Primeiro, está expandindo os seus espaços urbanos. Então, se primeiro a gente tem touradas na região central, que era a região mais considerada mais elegante da cidade, onde tudo acontecia, logo a gente vai ter touradas sendo organizadas na Zona Norte, uma expressão de que ali a gente tem uma nova área de habitação”, explica Victor.
Transformações urbanas e o papel das barcas
No início do século XX, Niterói, então capital do estado do Rio de Janeiro, vivia intensas transformações urbanas. A cidade combinava traços de localidade pacata com crescimento comercial e político. Obras de calçamento e saneamento avançavam, e bondes elétricos circulavam ao lado de veículos de tração animal. As barcas eram essenciais para conectar Niterói ao Rio de Janeiro, aproximando trabalhadores, comerciantes e visitantes — uma ligação que impulsionava também a circulação do público das touradas.
O público do Rio e a proibição das touradas na capital federal
As touradas em Niterói mantinham ligação direta com o circuito do Rio de Janeiro. Após a proibição das touradas na capital federal, em 1908, o público carioca passou a atravessar a Baía de Guanabara para assistir aos espetáculos em Niterói e São Gonçalo. Essa situação gerou uma fase em que, mesmo proibidas no Rio, as touradas atraíam grande público na região fluminense.
“Muita gente que gostava de touradas do Rio de Janeiro também começa a cruzar a Baía de Guanabara para assistir as touradas por aqui”, relata Victor. “Nessa década de 1910, as touradas atraem um público muito grande, vindo do Rio, de Niterói, de São Gonçalo e cidades vizinhas.”
De ‘Sevilha Fluminense’ à modernização urbana
O apelido “Sevilha Fluminense” surgiu justamente para destacar a popularidade das touradas na região, fazendo uma analogia à Sevilha, cidade espanhola emblemática da tauromaquia. Entretanto, as reformas urbanas e a busca por uma cidade mais moderna acabaram restringindo essas práticas.
As touradas foram proibidas no Centro, concentrando-se na Zona Norte, o que reflete a expansão urbana e as mudanças sociais de Niterói. Victor interpreta essa distribuição geográfica das arenas como um retrato do crescimento populacional e das transformações urbanas da cidade.
O historiador também ressalta que, embora as touradas fossem aceitas em determinado momento, a percepção social mudou. “As touradas são uma prática muito cruel com os animais, que houve em determinado momento uma certa aceitabilidade, mas que depois não se sustenta”, afirma, relacionando o desaparecimento da prática a processos civilizatórios que questionam comportamentos antes tolerados.
Resgatando a memória para entender a cidade
O livro “A Sevilha Fluminense: As Touradas em Niterói” reúne essa história por meio da trajetória das touradas, do contexto social e político ao desaparecimento das arenas em bairros como Barreto, Neves, Centro e São Francisco. Hoje, esses locais são parte de uma Niterói muito distinta da do início do século XX.
Para Victor, essa memória ajuda a compreender a transição de uma cidade rural para uma metrópole urbana, mostrando como os hábitos, os espaços e a forma de pensar a cidade evoluíram ao longo do tempo.
Mais do que curiosidade histórica, a antiga “Sevilha Fluminense” revela as transformações culturais e urbanas que moldaram Niterói, convidando o público a refletir sobre o passado e o presente da cidade.

