Como a Música Gera Conexões Profundas
Uma experiência única que suspende o tempo e cria uma intensa ligação entre pessoas. Assim é descrita a efervescência coletiva, um conceito elaborado pelo sociólogo Émile Durkheim, que caracteriza momentos de entusiasmo e união em rituais, celebrações e eventos comunitários. Entre os locais onde esse sentimento é mais palpável estão os shows ao vivo, especialmente em festivais que atraem multidões. O Lollapalooza, que encerra neste domingo (22) no Autódromo de Interlagos, em São Paulo, reúne fãs de 72 artistas para celebrar a música.
Yasmin Massa, 26 anos, recorda que sua primeira experiência em um show foi há 19 anos, quando assistiu à Floribella, protagonista da novela com o mesmo nome. Para ela, o momento mágico ocorre quando o artista entra no palco.
— A sensação de que algo incrível está acontecendo é inigualável. Ao ver o artista, você percebe que ele é real, e não uma ilusão. E quando olha ao redor e vê outras pessoas chorando e gritando, a conexão se intensifica — explica a analista de marketing, que já assistiu a mais de 200 apresentações.
Larissa Henrique, de 24 anos, que frequenta pelo menos três shows por ano, destaca uma experiência marcante em um evento onde estava sozinha.
— No show do Coldplay, em 2023, senti uma conexão profunda com os outros presentes. Parecia que todos compartilhavam a mesma emoção. Era como se estivéssemos fora da realidade por algumas horas, imersos na música e na energia — relata a engenheira agrimensora.
Yasmin, uma ávida fã de música ao vivo, pretende viajar do Rio para assistir a artistas internacionais no Brasil.
— Ver meus ídolos e vivenciar esses momentos especiais é uma experiência transformadora. É uma forma de transcendência que me conecta com o mundo — destaca Yasmin.
O Efeito da Música no Cérebro
O cérebro humano é, em essência, social. Cristiane Pertusi, psicóloga e doutora em Psicologia do Desenvolvimento Humano, explica que temos uma biologia que nos impulsiona a buscar união.
— Quando pessoas se reúnem com um objetivo comum, como um show, seus cérebros se sincronizam, criando um forte laço — afirma Pertusi.
A psiquiatra Laiana Quagliato, também doutora em Saúde Mental, elucida que há uma série de reações que fazem o cérebro se desconectar do “eu” individual, registrando uma narrativa compartilhada com o grupo.
— O que ocorre é uma reorganização das redes cerebrais. A barreira entre o “eu” e o mundo externo se dissolve, permitindo uma redução da autocrítica e das fronteiras entre indivíduos — esclarece Quagliato.
Quando escutamos música sozinhos, ativamos o sistema de recompensa do cérebro, mas em um show, a interação e a sincronia com o público potencializam essa experiência. A especialista menciona que estudos indicam a sincronização da frequência cardíaca e respiratória entre pessoas cantando juntas, intensificando a sensação de pertencimento.
A ativação de hormônios como endorfina e ocitocina durante um show gera prazer e euforia, reforçando memórias positivas.
Ritual Coletivo e Desafios da Era Digital
Quagliato compara a experiência de um show a um ritual religioso, onde pessoas buscam compartilhamento e conexão.
— No show, a intenção é ouvir música e vivenciar a emoção coletiva; em um ambiente religioso, busca-se a conexão divina. As experiências são bastante semelhantes — explica.
No entanto, em um mundo cada vez mais digital, é desafiador manter a atenção plena durante essas experiências. A psiquiatra recomenda que os participantes se foquem no presente, evitando distrações com celulares.
— A efervescência só pode ser plenamente vivenciada quando se está completamente imerso no momento. Focar em registrar a experiência para as redes sociais pode impedir que a pessoa ative as partes do cérebro necessárias para essa vivência intensa — alerta Quagliato.
A especialista também destaca o fenômeno da “ressaca emocional” após shows. Muitas pessoas retornam à rotina normal sentindo-se entediadas, e isso deve ser compreendido.
— É importante entender que essas experiências são extraordinárias. Após um evento, a rotina tende a ser menos emocionante, e isso pode gerar frustração — ressalta. Para ajudar nessa transição, o ideal é regularizar o sono e buscar atividades físicas, que auxiliam na metabolização da energia acumulada e mantêm os níveis de dopamina estáveis.

