Iniciativa Inovadora em Saúde Antirracista
A Fiocruz, em parceria com o Movimento Negro Unificado do Rio de Janeiro (MNU-RJ), lançou uma cartilha focada em saúde antirracista, com o intuito de fornecer ferramentas para enfrentar o racismo em espaços públicos e de convivência nas favelas. O material, voltado para moradores, moradoras e profissionais que atuam nessas áreas, inclui orientações práticas e reflexões de especialistas da saúde, educação e segurança, além de relatos de residentes locais. A cartilha já pode ser baixada facilmente.
O lançamento ocorreu em 18 de abril de 2024, durante um seminário no Instituto Social Acemades, em Vicente de Carvalho, na zona Norte do Rio de Janeiro. O evento reuniu pesquisadores da Fiocruz, profissionais da saúde, ativistas e moradores das favelas, promovendo um espaço de diálogo e reflexão sobre a importância da saúde antirracista.
A abertura do seminário contou com a exibição do documentário ‘Nzila: Favela, Ancestralidade e Saúde Antirracista’, que aborda a ancestralidade como pilar fundamental na luta por dignidade nas comunidades. Nzila, que significa ‘caminho’ em Bantu, é uma produção de divulgação científica que destaca as tecnologias sociais originadas dos saberes populares, além da ciência. Este projeto foi desenvolvido no âmbito da iniciativa Saúde na Favela pela Perspectiva Antirracista, que visa evidenciar práticas antirracistas de grupos e movimentos sociais.
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Debates Enriquecem a Reflexão
O seminário apresentou uma mesa de debates com a participação de Heitor Silva, coordenador da Educação de Jovens e Adultos da Fiocruz; João Batista, professor de História e coordenador estadual do MNU-RJ; Miriam de Oliveira, psicóloga e promotora de saúde antirracista; e Vanda de Souza, coordenadora do MNU-ES. Durante as discussões, Miriam de Oliveira destacou a importância de capacitar os moradores a reconhecerem o racismo em suas experiências diárias. ‘As pessoas que vivem nas favelas sentem a violência, mas nem sempre associam isso à sua identidade racial. Nossa intenção é dar voz e empoderar essas comunidades’, afirmou.
Vanda de Souza acrescentou que a maioria dos participantes do projeto são mulheres em busca de consciência sobre seus direitos e fortalecimento diante das adversidades cotidianas. ‘Cuidar é uma função coletiva, e essa formação amplia essa visão’, ressaltou. João Batista Carvalho enfatizou a urgência de iniciativas como pré-vestibulares e projetos sociais nas favelas, que ajudam a população a reivindicar seus direitos e a se apropriar de seus territórios.
Impactos da Violência nas Comunidades
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Um ponto crítico levantado durante o seminário foram os conflitos armados que afetam diretamente a formação e o cotidiano das favelas. O ano de 2025 foi marcado por operações policiais que comprometeram o acesso à educação e saúde, especialmente nas comunidades de Vila Aliança e Vila Cruzeiro. Um exemplo alarmante disso foi uma operação em outubro de 2025 que resultou em 122 mortes no Complexo da Penha, causando grande repercussão entre os moradores e afetando sua saúde mental.
A cartilha, construída a partir das experiências vividas nas sete favelas do Rio de Janeiro envolvidas no projeto, traz diagnósticos detalhados e enfatiza as desigualdades estruturais que permeiam essas comunidades. A diferença na expectativa de vida entre bairros é um indicativo contundente dessa disparidade: na Gávea, a média é de 80 anos, enquanto no Complexo do Alemão, é apenas 65 anos, refletindo as disparidades em renda e acesso a serviços de saúde.
Formação e Disseminação de Conhecimento
De acordo com Leonardo Brasil Bueno, coordenador do projeto na Fiocruz, a cartilha representa a complexidade das vivências nas favelas e foi elaborada com o esforço conjunto de moradores e profissionais. O documento também revela que cerca de 80% dos usuários do Sistema Único de Saúde (SUS) se identificam como negros, um grupo que enfrenta os maiores índices de morbimortalidade, evidenciando a necessidade urgente de ações antirracistas e de promoção da saúde nos territórios.
Como parte desse projeto, a formação de promotores populares de saúde antirracista se destaca. Esses voluntários têm a missão de fortalecer redes de solidariedade e ampliar o acesso à informação sobre os direitos à saúde, apoiando a busca por um sistema de saúde mais justo.
A iniciativa ‘Saúde na Favela pela Perspectiva Antirracista’ é uma estratégia para promover ações de saúde com acolhimento e escuta ativa, focando em moradores de favelas que enfrentam violações de direitos humanos. A coordenação é realizada pela Fiocruz em parceria com o Movimento Negro Unificado (MNU-RJ), com a expectativa de que a cartilha seja amplamente utilizada para enriquecer o debate sobre práticas antirracistas e a defesa dos direitos humanos nas comunidades.

