O cenário das apostas no Rio de Janeiro
O Rio de Janeiro se destaca no Brasil por concentrar o maior número de apostadores, com 1,8 milhão de pessoas envolvidas em apostas esportivas em junho, segundo dados do Ministério da Fazenda (MF). Isso representa 26,89% da população carioca. Em comparação, São Paulo, com quase o dobro de habitantes, tem 15,75% da população apostando. Esse dado revela um fenômeno que vai além da simples atração pelo jogo, envolvendo questões sociais, econômicas e culturais.
Para ilustrar a dimensão do problema, Breno (nome fictício), empresário de 37 anos, viveu a experiência de perder tudo para as apostas on-line. Ele relata o impacto devastador no casamento, no tempo com os filhos e até na perda de um imóvel recebido do pai. Hoje, Breno busca recuperação no grupo de apoio Jogadores Anônimos, onde compartilha o ciclo de dependência que o afastou da família e comprometeu sua vida pessoal.
Perfil dos apostadores e impacto na saúde pública
Em resposta ao aumento do transtorno do jogo, a Secretaria municipal de Saúde do Rio criou um programa que identifica e trata esse vício na rede pública. Pacientes são questionados sobre o impulso de apostar e a necessidade de mentir a respeito, o que ajuda a encaminhá-los para atendimento especializado. Dados iniciais mostram que quase 60% dos apostadores atendidos são homens, com 53% entre 18 e 39 anos. Entre os familiares afetados, 85% são mulheres acima de 40 anos, geralmente mães e esposas.
O secretário municipal de Saúde, Rodrigo Prado, destaca que o tratamento é complexo, pois o transtorno do jogo geralmente está associado a ansiedade, insônia e depressão. O foco está na detecção precoce para evitar que o problema se agrave e comprometa ainda mais a vida dos pacientes e suas famílias.
Fatores econômicos e culturais que influenciam as apostas
Segundo o diretor do Instituto de Economia da UFRJ, Carlos Frederico Leão Rocha, o carioca tem maior propensão ao jogo devido a uma expectativa de renda menor em comparação a São Paulo, além da informalidade e da alta presença de funcionários públicos com acesso a crédito consignado e juros mais baixos. Essas condições favorecem o endividamento e facilitam o envolvimento com apostas.
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Gabriel (nome fictício), integrante do grupo Jogadores Anônimos e professor da Universidade Federal Fluminense (UFF) em Macaé, complementa que a renda não explica sozinha o fenômeno. Há um componente cultural e histórico, ligado à naturalização do jogo do bicho no Rio. Essa tradição criou uma relação sociocultural que as casas de apostas on-line atualizam para atrair apostadores, reforçando a ideia de que é possível ganhar dinheiro para suprir necessidades básicas, como a compra de eletrodomésticos.
Consequências financeiras e sociais do vício
O endividamento é uma das consequências mais graves do vício em apostas. O Brasil atingiu um recorde de 83,9 milhões de pessoas inadimplentes, com o Rio entre os cinco estados mais afetados, onde 45% da população está no vermelho. Pesquisa do Serasa aponta que 46% dos inadimplentes já apostaram em casas de apostas, muitas vezes na esperança de quitar dívidas. Breno conta que sua tentativa de recuperar perdas apenas aumentou o ciclo de prejuízos, evidenciando a dificuldade de romper o vício.
O relato de outro paciente em tratamento revela que chegou a usar a doença da esposa para conseguir dinheiro para apostar, mostrando o impacto devastador nas relações pessoais e na confiança familiar. A dependência do jogo, portanto, não é apenas financeira, mas também emocional e social.
Desafios na prevenção e combate ao transtorno do jogo
Para conter o avanço do vício, o governo federal determina a exibição obrigatória de alertas nas plataformas de apostas, que informam sobre os riscos e desassociam apostas de investimentos. Além disso, o jogador pode solicitar o bloqueio do CPF em todos os sites oficiais pelo portal gov.br. No entanto, muitos ainda enfrentam dificuldades, já que empresas ilegais continuam enviando mensagens e oferecendo apostas, dificultando a exclusão completa do apostador.
Júnior (nome fictício), estudante de tecnologia da informação, usou seus conhecimentos para bloquear anúncios e mensagens relacionadas a apostas em suas redes sociais, evitando gatilhos que possam estimular o vício. Mas essa solução não é acessível para a maioria das pessoas em tratamento, o que evidencia a necessidade de políticas públicas mais eficazes.
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O papel da cultura e da conscientização pública
Gabriel Correia, professor da UFF, enfatiza a importância de mudar a cultura em torno do jogo. Ele sugere que o poder público promova campanhas que mostrem os problemas das apostas em proporção muito maior que a publicidade das casas de apostas. Para ele, a questão é coletiva e exige ações coordenadas para conscientizar a população sobre os riscos do vício.
O reconhecimento da ludopatia como transtorno mental
Classificada há quase 50 anos como transtorno mental e comportamental pela Organização Mundial da Saúde (OMS), a ludopatia ganhou destaque com o crescimento das apostas on-line. O Ministério da Saúde informa que, desde março, mais de 27 mil pessoas se cadastraram no teleatendimento em saúde mental do SUS para jogadores e apostadores, das quais 2.448 são do Estado do Rio.
O programa Dependências — Droga, Jogo e Álcool, da UFRJ, lançou um projeto específico para atender jogadores, coordenado pelo psiquiatra Marcelo Santos Cruz. Ele destaca que a facilidade de acesso às apostas via celular ampliou o número de dependentes, pois antes era necessário sair de casa para jogar em locais físicos.
Regulamentação das apostas e desafios atuais
As apostas esportivas, conhecidas como bets, foram legalizadas em 2018 pelo governo federal. Em 2023, os jogos on-line de cassino também foram incluídos na regulamentação, que entrou em vigor em 1º de janeiro de 2025. O Estado do Rio criou regras próprias para registrar as empresas que operam no setor. Mesmo assim, o combate ao vício e a proteção dos apostadores ainda enfrentam desafios, especialmente em relação ao controle das plataformas ilegais e à oferta de suporte efetivo aos dependentes.
Este cenário reforça a necessidade de políticas públicas integradas, que atuem na prevenção, no tratamento e na conscientização, protegendo a população dos efeitos devastadores do transtorno do jogo e garantindo acesso a cuidados adequados.

