São Gonçalo ganha destaque com decisão política e valorização cultural
Após o resultado das eleições para o governo do estado ser confirmado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) em 10 de outubro, Douglas Ruas (PL), policial civil e ex-presidente da Alerj, anunciou que não irá se mudar para o Palácio das Laranjeiras, residência oficial do governador. Optou por permanecer em São Gonçalo, sua cidade natal, trazendo um olhar diferenciado para o segundo município mais populoso do estado do Rio de Janeiro, com quase 1 milhão de habitantes, conforme estimativas do IBGE, ficando atrás apenas da capital, distante 25 quilômetros. Ruas destacou que São Gonçalo faz parte do “Rio real”, e não do “Rio da novela”, criticando a negligência histórica com regiões como a Baixada e o Leste Metropolitano.
Considerada um importante centro comercial, São Gonçalo ainda enfrenta o estigma de “cidade-dormitório“. Porém, para o historiador e professor da Uerj, Rui Aniceto, esse conceito não reflete a realidade da cidade. Ele destaca que espaços como comércio, praças, escolas e campos de futebol fomentam o sentimento de pertencimento e demonstram que São Gonçalo é mais do que um local de passagem entre casa e trabalho.
Investimentos e desafios: avanços e obstáculos na infraestrutura
A permanência de Ruas na cidade representa um orgulho para os gonçalenses e evidencia o contraste entre a visibilidade da capital e a realidade dos grandes centros periféricos, que ainda enfrentam dificuldades históricas em infraestrutura e serviços públicos. O prefeito desde 2021, Capitão Nelson (PL), pai de Ruas, em parceria com a ONU-Habitat, elaborou o Plano Estratégico Novos Rumos, que tem promovido obras importantes, como drenagem, saneamento e pavimentação em bairros antes desassistidos. Ele reconhece que, apesar dos avanços, ainda há muito a ser melhorado.
Nos últimos cinco anos, o número de exames agendados no Centro de Imagens e Especialidades (Ciesg) quadruplicou, e o Hospital do Câncer e do Coração (HCCOR) realizou mais de 162 mil procedimentos de alta complexidade. Além disso, a implantação do corredor Mobilidade Urbana Verde Integrada (Muvi), com seus 18 quilômetros, é destaque entre as intervenções recentes. Apesar desses avanços, moradores relatam que problemas persistem. O comerciante Wilson Vieira, do Barro Vermelho, aponta que o saneamento ainda é precário, com esgoto sendo despejado sem tratamento nos rios, causando alagamentos e infiltrações nas residências durante chuvas intensas.
Cultura como motor de transformação em São Gonçalo
Enquanto enfrenta desafios estruturais, São Gonçalo fortalece sua vocação artística, rompendo com narrativas tradicionais das periferias. A economia criativa cresce por meio de iniciativas como a Fábrica de Artes e Cidadania (FAC), fundada pelo grafiteiro Fabio Ema para formar jovens artistas, e o projeto Cidade Ilustrada, que espalhou 97 painéis de grafite pela cidade, celebrando a identidade negra local.
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Marcelo Eco, diretor e curador do Cidade Ilustrada, destaca que os alunos mais talentosos das oficinas do Cria SG, projeto da prefeitura, são contratados para desenvolver os murais e que estudantes visitam regularmente os corredores culturais. O cantor e compositor Dico, idealizador do documentário São Gonçalo é Meu Ponto de Partida (2024), ressalta que a cidade possui uma identidade cultural única, construída por diferentes gerações e expressa na musicalidade e na arte.
Por outro lado, a preservação do patrimônio histórico enfrenta dificuldades. O Palacete do Mimi, casarão de 1917 que abrigou salões modernistas, foi demolido após cair em ruínas. Rafael Navarro, professor da Uerj em São Gonçalo, alerta que essa perda não é isolada e que outros imóveis históricos também sofrem com o descaso.
História rica e desafios contemporâneos
As origens de São Gonçalo remontam ao século XVI, quando Gonçalo Gonçalves recebeu terras e construiu uma capela dedicada ao santo que dá nome à cidade. A Igreja Matriz de São Gonçalo de Amarante e a Fazenda Colubandê, erguida no século XVII pelos jesuítas e tombada atualmente, são marcos dessa ocupação. No século XIX, a região destacou-se pela agricultura e seus engenhos. Entre as décadas de 1940 e 1950, viveu um auge industrial que lhe rendeu o apelido de Manchester Fluminense, em referência à cidade inglesa berço da Revolução Industrial.
A Ilha das Flores, hoje sob administração da Marinha, pertence ao município e foi sede da primeira Hospedaria de Imigrantes do Brasil, entre 1883 e 1966, por onde passaram mais de 1 milhão de estrangeiros. A cidade também é reconhecida como local importante para a história da umbanda, que teria nascido ali. Contudo, o declínio industrial a partir dos anos 1970 contribuiu para reforçar o estigma de cidade-dormitório, com o varejo e a prestação de serviços ganhando destaque na geração de empregos.
Segurança pública e investimentos em espaços urbanos
Além dos desafios econômicos e estruturais, a segurança pública é tema central em São Gonçalo. De acordo com o Atlas da Violência de 2026, elaborado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), o município apresenta uma das maiores taxas de violência letal na Região Metropolitana, com aproximadamente 41 homicídios por 100 mil habitantes. Esse cenário está relacionado a disputas territoriais e à presença do crime organizado.
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Para enfrentar essa realidade, a administração municipal tem adotado medidas como a instalação de câmeras com tecnologia de reconhecimento facial e a atuação da Ronda Ostensiva Municipal Urbana (Romu). Também estão em andamento projetos para revitalizar áreas como a Praia das Pedrinhas. A prefeitura criou o Parque RJ Nosso Sonho, no antigo Piscinão do Boa Vista, com 35 mil metros quadrados, e planeja a implantação do Museu da Umbanda, além de um inventário dos patrimônios material, imaterial e natural da cidade.
Superar o preconceito contra São Gonçalo exige unir a valorização da memória local a investimentos contínuos em serviços públicos, fortalecendo a identidade e a qualidade de vida dos moradores.
De São Gonçalo para o mundo: artistas e ícones da cidade
São Gonçalo é berço de nomes consagrados que alcançaram projeção nacional e internacional. Entre eles está BLACK ALIEN, rapper e compositor que foi integrante do Planet Hemp e referência no hip-hop brasileiro. VINI JR., atacante do Real Madrid e da Seleção Brasileira, é natural do bairro Mutuá.
O grupo musical OS GAROTIN, formado por Léo Guima, Anchietx e Cupertino, conquistou o Grammy Latino de melhor álbum pop em língua portuguesa em 2024. Carlos Ferreirinha, empresário do mercado de luxo, foi o mais jovem presidente da Louis Vuitton Brasil.
Outros destaques são Orochi, rapper e empresário revelado nas batalhas de rima locais; Cláudio Zoli, cantor e compositor de soul e MPB; Lucas Bebê, jogador de basquete com passagem pela NBA; Buchecha, estrela do funk e pop nas décadas de 1990 e 2000; e Cláudia Leitte, cantora de axé e pop.

