Livros que desafiavam a ciência oficial
Em um período marcado pela transição do Brasil escravocrata para uma república militar nascente, os lançamentos da Livraria e Editora Quaresma agitavam o cenário cultural do Rio de Janeiro. Obras como O livro de São Cipriano ou o Tesouro do feiticeiro, O livro da bruxa ou manual da cartomante e O livro do feiticeiro ou a ciência de Juca Rosa revelada reuniam uma mistura singular de receitas terapêuticas, referências médico-científicas, devoções religiosas e práticas da feitiçaria afro-brasileira.
Jefferson Nascimento Albino, autor da tese defendida no Programa de Pós-Graduação em História das Ciências e da Saúde (PPGHCS) da Casa de Oswaldo Cruz (COC/Fiocruz) e orientado por Kaori Kodama, destaca o impacto dessa diversidade. “Aspectos como a predominância de uma população negra e mestiça, a permanência da arquitetura colonial, a estreita relação entre Igreja e Estado e uma cultura marcada por superstições, mitos e práticas religiosas africanas, indígenas e católicas populares entravam em choque com as demandas da nova ordem republicana”, explica.
Entre liberdade religiosa e repressão penal
A Constituição de 1891 garantia a liberdade de cultos, mas o Código Penal de 1890 criminalizava práticas como magia, feitiçaria, cartomancia e curandeirismo, classificadas como crimes contra a saúde pública. A partir da análise de processos criminais, habeas corpus, petições, periódicos, anúncios e exemplares dos próprios livros, Albino mostra que essas obras foram palco de disputas pela legitimidade dos saberes e modos de vida.
“Eles condensam os campos de disputas daquele momento, permitindo refletir sobre as tensões entre ciência e magia e quais saberes a República buscava legitimar”, observa o pesquisador. As obras circulavam amplamente entre o povo, oferecendo uma visão alternativa ao modelo hegemônico que o regime tentava estabelecer.
O mercado editorial da magia
A Livraria e Editora Quaresma, fundada em 1879 na Rua São José, no Centro do Rio, conquistou um público diversificado: desde letrados curiosos e colecionadores do maravilhoso até imigrantes portugueses familiarizados com grimórios, espiritistas e ocultistas urbanos. Pedro da Silva Quaresma aplicava um estilo pioneiro de marketing, reutilizando matrizes europeias de baixo custo e distribuindo seus livros em feiras, armarinhos e bancas.
Além das vendas, a livraria se tornou um espaço de trocas intelectuais, onde nomes como Machado de Assis e Euclides da Cunha debatiam e promoviam suas obras, contribuindo para a cultura impressa nacional.
Páginas que transitavam entre cura e suspeita
Albino revela que os livros mágico-religiosos circulavam em múltiplos espaços: livrarias, consultórios, feiras, espaços religiosos, jornais e delegacias. Nesse trajeto, eles deixavam de ser apenas objetos de leitura para se tornarem instrumentos terapêuticos e também alvos de suspeita e denúncia.
Em nove jornais entre 1890 e 1920, foram localizadas 600 menções a curandeiros e feiticeiros, mobilizando desde trabalhadores e comerciantes até membros da alta sociedade carioca. A imprensa, ao mesmo tempo em que dava visibilidade a essas práticas, também participava da repressão social contra os agentes mágico-religiosos.
A ambiguidade dos curandeiros
Um exemplo dessa tensão aparece em uma edição do jornal O Paiz de 30 de julho de 1898, que anunciava O livro do feiticeiro, obra que prometia revelar os segredos do pai-de-santo Juca Rosa, renomado curandeiro que teria curado milhares de pessoas consideradas sem esperança pela medicina oficial.
Ao mesmo tempo, notícias sobre a morte de jovens que buscaram contrafeitiços com curandeiros como Juca Breves revelam a ambiguidade com que esses agentes eram vistos: reconhecidos e criminalizados, curandeiros eram figuras de esperança para muitos e ameaça para o sistema médico oficial.
Disputa pela hegemonia da cura
As práticas mágico-religiosas eram buscadas principalmente para tratar questões de saúde física, evidenciando o embate entre a medicina acadêmica e saberes populares. Albino ressalta que essa disputa era política e simbólica, envolvendo o controle estatal e a autoridade das elites sobre as formas de cura aceitas.
Repressão e resistência na justiça
O estudo analisou 100 documentos processuais, com destaque para processos criminais e inquéritos policiais, revelando a intensidade da perseguição aos praticantes de magia e curandeirismo. Mesmo dentro do sistema judicial, acusados e seus defensores buscavam estratégias de autodefesa, mostrando que as disputas ultrapassavam o campo da repressão pura e simples.
Legado e desafios atuais
Embora hoje haja avanços no reconhecimento das práticas afro-brasileiras e indígenas no campo do patrimônio cultural, Albino aponta que a valorização dessas epistemologias do cuidado ainda enfrenta resistências em outras áreas. O debate sobre a legitimidade dessas formas de cura permanece vivo, refletindo tensões históricas que atravessam a cultura e a política no Brasil.

