Crescimento do Setor de Turismo Receptivo
Nos últimos anos, o Brasil tem se destacado no turismo receptivo, um segmento que envolve operadoras e agências dedicadas a receber tanto estrangeiros quanto brasileiros, oferecendo serviços como transporte, guias locais e passeios personalizados. De acordo com dados do setor, o faturamento dessas empresas cresceu cerca de 30% entre 2019 e 2025, com a expectativa de que o país atinja o marco de 9 milhões de visitantes internacionais em 2025.
A CEO da Brocker, uma referência em turismo receptivo na Serra Gaúcha, Any Brocker, destacou que a demanda por roteiros de natureza, gastronomia e cultura tem aumentado significativamente. “Estamos cada vez mais fortes nos roteiros de natureza, gastronomia e cultura. Temos um roteiro no Parque do Caracol com limitação diária de passeio, em grupos de até 35 pessoas, e a programação está praticamente lotada. Os roteiros tradicionais também continuam populares, mas a procura pelos de natureza tem sido alta”, comentou.
Desafios e Oportunidades do Setor
No comparativo com 2019, a Brocker encerrou 2025 com um faturamento 51% superior. No entanto, 2024 foi um ano desafiador, com as enchentes no Rio Grande do Sul impactando severamente a operação turística, levando à interdição do aeroporto de Porto Alegre e provocando uma queda de 40% no faturamento. A recuperação começou no ano seguinte, com um crescimento de 2% em relação a 2023, e a empresa busca manter o ritmo ascendente em 2026.
Outra operadora, a Orinter, com sede em São Paulo e focada no modelo B2B, também mostrou resultados expressivos, com um crescimento de 384% no faturamento entre 2019 e 2025. Atualmente, a empresa atende cerca de 6 mil agências, das quais 15% são especializadas em turismo receptivo, um aumento significativo em relação aos 3% registrados anteriormente.
O Perfil do Turista Estrangeiro e a Resistência Local
Roberto Sanches, diretor-geral da Orinter, enfatizou a importância de compreender as tendências dos turistas estrangeiros. “A questão cultural é extremamente relevante. Estamos vendo diversas praias sendo reconhecidas por sua beleza natural, além de serviços de qualidade, como pousadas de luxo e opções gastronômicas. Os turistas buscam experiências autênticas. Além de argentinos e chilenos, que continuam a ser os principais visitantes, temos notado um aumento no número de europeus e asiáticos”, afirmou.
Apesar do crescimento do turismo receptivo, ainda existe resistência entre os brasileiros ao optar por agências especializadas ao viajar dentro do próprio país. Os entrevistados notaram que muitos brasileiros não contratam serviços receptivos, frequentemente por questões linguísticas e falta de planejamento. “Estamos tentando desmistificar essa realidade, oferecendo pacotes que se mostram mais vantajosos do que comprar serviços separados”, explicou um dos agentes.
A Ascensão do Segmento de Experiências
Dados da Civitatis, uma plataforma internacional que comercializa tours, revelam que em 2025 o segmento de experiências cresceu quase três vezes mais do que o turismo em geral, gerando um faturamento de US$ 253 bilhões apenas na venda de experiências. Esse é o foco das agências de turismo receptivo, que visam expandir suas ofertas, especialmente para os turistas estrangeiros.
De acordo com informações do Banco Central, em 2025, os visitantes internacionais gastaram no Brasil cerca de US$ 7,8 milhões, enquanto os brasileiros deixaram US$ 21,7 milhões no exterior, uma diferença significativa. Essa disparidade se deve ao perfil distinto dos turistas: enquanto muitos brasileiros vinculam suas viagens internacionais a compras, os estrangeiros buscam experiências e serviços de qualidade.
A coordenadora do Centro de Estudos em Finanças da Fundação Getúlio Vargas (FGV), Claudia Yoshinaga, comentou: “Os turistas estrangeiros conseguem acessar hotéis e restaurantes de alta qualidade a custos reduzidos. Em relação ao dólar, o gasto é cinco vezes menor. Assim, há um poder de compra maior focado em serviços, ao contrário do turista brasileiro, que frequentemente associa viagens a compras.”
Investimentos para Atração de Turistas
Para ampliar o fluxo de visitantes, Bruno Reis, diretor de Marketing, Negócios e Sustentabilidade da Agência de Promoção Internacional do Turismo (Embratur), revelou que estão sendo realizados investimentos para melhorar a malha aérea conectando cidades secundárias de outros países. “Nos últimos três anos, aprimoramos nossa compreensão sobre os mercados emissores, incluindo não apenas argentinos, mas também paraguaios, uruguaios, chilenos, bolivianos, peruanos e colombianos. Como resultado, pela primeira vez, a Embratur lançou um programa de subsídio para voos fretados e regulares em parceria com aeroportos de outros países. Além disso, estamos incentivando companhias aéreas a estabelecer novas rotas”, detalhou Reis.

