Artistas do Sul Global em Destaque
A 61ª edição da Bienal de Veneza abre suas portas em meio a protestos e reflexões sobre o passado colonial. Retornando à cidade após a edição de 2017, o artista Heráclito apresenta obras da série “Juntó” e destaca a importância da proposta de Koyo, que visa dar espaço a artistas e pesquisadores do Sul Global. Segundo ele, essa edição é um passo significativo, assim como a participação do camaronês Bonaventure Ndikung, curador-geral da 36ª Bienal de São Paulo.
“Estive com a Koyo três meses antes de sua morte, em Chicago, quando ela me convidou oficialmente para participar, junto com Eustáquio, que estava presente. Koyo era uma pessoa fascinante, com quem tive a honra de ser amigo. Sua perda foi um grande baque”, relata Heráclito. “Na Bienal, conseguimos ver o pensamento dela refletido sobre uma geopolítica marcada pela brutalidade da guerra e do imperialismo. Esta bienal é notavelmente madura, sem os estigmas que costumam ser atribuídos à arte não ocidental, contra os quais temos lutado tanto.”
Abertura para Novas Narrativas
Neves, outro artista brasileiro presente na mostra, comenta sobre a diversidade de países representados. “Vejo muitos países que nunca estiveram numa Bienal e estão agora aqui. O conceito da Koyo me foi explicado, mas agora percebo essa conexão, mesmo com origens completamente diferentes da minha. O diálogo está presente, enraizado na ancestralidade e em outras ligações”, observa.
Além dos três brasileiros na mostra principal, o pavilhão do país, sob a curadoria de Diane Lima, apresenta obras de Rosana Paulino e Adriana Varejão. O título da exibição, “Comigo ninguém pode”, emprestado de uma obra de Rosana, faz referência a diversas simbologias associadas à planta homônima, abordando temas que permeiam as carreiras das artistas ao longo de três décadas, como colonialismo, fissuras históricas, reparação e a relação com a natureza.
Desafios e Representatividade na Arte Brasileira
Diane Lima destaca que o pavilhão desafia a ideia tradicional de representação da arte brasileira. “É a primeira vez que temos uma curadoria negra com três mulheres, sendo uma delas uma artista negra. Isso está alinhado com o que o mundo espera de um país que é um grande laboratório racial, marcado por violências contínuas que geraram tecnologias e estratégias para lidar com elas”, explica.
Adriana Varejão, por sua vez, fala sobre sua ligação com o barroco, uma estética que não remete diretamente à natureza, mas à teatralidade. “Utilizei a metáfora do teatro e da representação para simular ruínas, deixando vestígios nas paredes. Até hoje, havia feito ruínas de carne, mas agora elas também se transformam em terra, em vegetal, criando um elo com a obra da Rosana”, conta.
Reflexões sobre o Passado e o Presente
A artista reflete sobre a filosofia africana, que não segmenta o tempo em começo, meio e fim. “Falamos sobre a escravidão, mas vemos os barcos interceptados hoje, antes de chegarem à Europa, que se torna cada vez mais fechada à imigração. Estamos abordando o passado e o presente de forma simultânea”, diz.
Ademais, a mostra conta com a participação de Raphael Fonseca, carioca e recém-nomeado curador da 37ª Bienal de São Paulo, que assina o Pavilhão de Taiwan, intitulado “Screen Melancholy”, apresentando obras do artista Yi-Fan Li. Assim, a Bienal de Veneza 2024 não apenas celebra a diversidade cultural, mas também provoca uma reflexão crítica sobre questões contemporâneas e históricas que ainda reverberam na sociedade atual.

